Gosto de compota, sensação de aconchego e cheiro, claro, de pão de queijo. São essas sensações que abraçam e embalam a infância de Luciana Peres, advogada de formação, pão de queijeira quase que por osmose e, há dez anos, as mãos por trás das fornadas do Dona Celina.
No Dona Celina, o pão de queijo é protagonista à mesa e fio condutor de uma vida. Na casinha do Jardim Guedala, pão de queijo é entrada, prato principal e sobremesa. É protagonista inegável de um cenário que respira em bom mineirês.
De tio para sobrinha
Apesar de a mãe ser a cozinheira de mão cheia da família, que inspirou Luciana desde pequena a colocar a mão na massa na cozinha, e a avó, que dá nome à casa, ser dona de doces cristalizados em compota e de licores que dão água na boca até hoje, foi seu tio Marcos, Marquinhos para os íntimos, quem lhe garantiu um ofício. Um belo dia ela suplicou: “me ensina a receita, vai, tio”. Ele cedeu e ensinou toda a alquimia da coisa.
“Ele tinha aprendido com uma tia, na fazenda, e ensinou para mim e para a minha prima, mas sempre dizia: o dela não fica igual ao seu.” Para Luciana, o pão de queijo faz parte da sua história e da sua família.
“Ele morreu no dia 11 de setembro de 2024, tinha chagas, e, logo antes, eu o chamei para tomar um café no Dona Celina. Ele veio e estava tomando muitos remédios, então colocou o pão de queijo na boca e disse: ‘tá igual da minha tia’. E eu chorei, porque a minha referência é o dele – e o dele é o da tia. Foi muito especial”, relembra com água nos olhos.
Logo, a família sempre foi ponto-chave para que Luciana desenvolvesse o gosto pela coisa. “Minha mãe obrigava a gente a ficar sexta-feira depois da aula na cozinha, sempre fiquei muito com ela e gostava”, diz.
“Eu falo que meu tio me ensinou a receita e a minha avó deu base de coisas profundas, sabe? De perseverança, positividade, coisas muito boas” – não à toa, ela batizou seu negócio com o nome dela: Celina.
Uma vida que (re)começa com pão de queijo
“Depois que meu tio me ensinou, eu fazia todo domingo, que nem louca”, conta, “levava na escolhinha dos meus filhos, o pessoal do escritório queria sempre também. Eu fazia domingo e assava segunda de manhã para levar quentinho. E assim foi. Daí, percebi que as pessoas gostavam muito, até quem nem era fã do preparo. Fiquei encafifada, pensei: ‘hum, tem um negocinho aí, né?’ E coincidiu que depois eu tive o burnout.”
Após o burnout, começou a pensar em saídas para a sua vida, sabia que não queria seguir naquela rotina exaustiva e que colocar a mão na massa à cozinha era quase terapêutico. Então, lembrou de tudo isso, dos elogios, do gosto pela coisa e começou, na cozinha de casa mesmo, o que viria a ser o Dona Celina.
“Eu fiquei 2016 namorando essa ideia. Pensei em deixar de advogar para fazer pedagogia e virar professora de História, porque é algo que eu amo, mas daí falei: ‘quer saber? Vou fazer pão de queijo’. Olha só que engraçado, o negócio que estava debaixo do meu nariz, a cozinha.”
De boca em boca, de entrega em entrega, a palavra dos pães de queijos da Luciana foi se espalhando, mas foi nas feiras gastronômicas que a marca se firmou. “A gente fez tanta feira e isso atrai uma diversidade de clientes, temos uma clientela muito louca, gente famosa, pessoas que frequentam a casa desde que inauguramos há seis anos.”
Com boas matérias-primas, o que importa é técnica, movimento, uma pitadinha ali, uma inversão de ingredientes acolá, e o produto se torna único, com a assinatura de quem o faz. É isso que sai todos os dias da cozinha do Dona Celina.
O que comer no Dona Celina?
“Mineiro é psicopata do bem. Só pensa em comida”, pois então, não poderiam faltar dicas do que comer por lá. Claro que o pão de queijo mineiro clássico e simples não pode faltar (R$ 9), mas o Dona Celina também brilha com seus recheios. Entre os salgados, o de calabresa com cebola caramelizada e queijo (R$ 20) é uma bela pedida, bem como as novidades pelos dez anos: fio de mel no queijo gorgonzola (R$ 20) e ragu de ossobuco com kimchi (R$ 22). Para beliscar, os palitinhos de parmesão (R$ 10).
As formiguinhas de plantão também estão bem servidas com o de queijo com goiabada (R$ 14) e a novidade de queijo com geleia de cupuaçu (R$ 22). Mas nem só de pão de queijo se vive Dona Celina, com a proposta de se tornar também um local para cafés da manhã e da tarde, serve desde coadinhos e espresso a latte com calda de rapadura (R$ 18), inclusive com um novo blend feito especialmente para a casa. Há também iogurte com granola e frutas (R$ 19), bolo do dia e tábua de frios. Mas, no cerne da coisa, lá está ele, empilhado nas vitrines, estampado nas paredes, dominando o ar com seu aroma inconfundível.
“Eu falo que o pão de queijo é o principal e ao mesmo tempo um detalhe. Ele está envolto em muitas coisas, em sensações, eu não sei te dizer, mas é diferente, tem coisas que o rodeiam. Tudo aqui, toca muito nas entranhas do meu ser.” E, com certeza, nas de quem entra pela porta.
Serviço
R. Amélia Corrêa Fontes Guimarães, 20 – Jardim Guedala
Segunda a sexta: das 9h às 18h; Sábados: das 9h às 16h; Fechado aos domingos
@donacelina_artesanal



