Nos primeiros capítulos de 'Quem Ama Cuida', a protagonista Adriana divide uma coxinha com um desconhecido sem dinheiro, mesmo com fome. A vilã Pilar quase sempre segura uma taça de champanhe, mesmo durante o dia. Já Pedro aparece bebendo Toddynho, flertando com um papel de herói inofensivo. Esses exemplos foram selecionados pela pesquisadora de gastronomia Cintia Marcucci, que há seis anos estuda o papel da comida nas novelas da Globo.
Comida como ferramenta narrativa
“Em todas as novelas que estudei, a comida sempre se mostra uma excelente ferramenta narrativa. Ela dá o tom dos personagens, constrói intimidade e fortalece as relações”, afirma Cintia. Ela destaca que a comida também confere identidade cultural e social à trama. “Não são escolhas aleatórias. Sempre que pratos aparecem em cena, eles refletem padrões comportamentais ou inspiram comportamentos”, explica.
Exemplos clássicos incluem o sanduíche de Raquel em 'Vale Tudo' (1988 e 2025), o pastel da Dona Jura em 'O Clone' (2001) e o bolo de Maria da Paz em 'A Dona do Pedaço' (2019). Esses são casos de “comida protagonista”, quando a comida define a trama. A Globo criou um portal com receitas de novelas para atender ao interesse do público.
Categorias da comida na teledramaturgia
Cintia identifica três funções da comida. A primeira é a “comida protagonista”, como os exemplos acima. A segunda é a “comida de ambientação”, presente em fazendas de cacau de 'Renascer' (1993/2024) ou em 'Chocolate com Pimenta' (2003). A terceira é a “comida coadjuvante”, que ajuda a conduzir diálogos, como em 'Avenida Brasil' (2012), onde as conversas da família de Tufão aconteciam à mesa e a rivalidade entre Carminha e Nina se manifestava pelo ato de servir comida.
O interesse de Cintia surgiu na pós-graduação em Gastronomia no Senac. Ela analisou cinco novelas dos anos 1980 e 1990 em seu trabalho 'Novela Velha é que Faz Comida Boa'. “A comida é uma ferramenta de suspensão da descrença. Ela aproxima os personagens entre si e o público da história”, diz. Ela também notou pequenos flagrantes históricos, como o kiwi surgindo como novidade em 'Quatro por Quatro' (1994).
Análise de 'Quem Ama Cuida'
Nos 24 primeiros capítulos, Cintia contou 65 aparições do café e 54 de bebidas alcoólicas. “O café funciona como marcador de tempo e ferramenta de construção das relações”, observa. Pilar e sua taça de champanhe ajudam a construir sua imagem de vilã. “Como haverá uma passagem de tempo, talvez os personagens passem a beber menos”, especula.
Sobre Pedro e o Toddynho, Cintia questiona: “O que será que ele quer contar com isso? Será que vem uma revelação?”. Nos bastidores, circulam rumores de que Pedro pode se revelar o grande vilão. Cintia promete acompanhar tudo de perto, da sala de casa, onde montou um altar com objetos cenográficos, como a jarra de abacaxi de 'A Grande Família' e um filtro de barro. “Toda novela brasileira que se preze, especialmente nos núcleos populares, sempre tem um filtro de barro para chamar de seu.”



