O mercado de carros chineses no Brasil, que viu a chegada de mais de 20 marcas nos últimos três anos, deve passar por um forte encolhimento. A previsão é de Igor Calvet, presidente da Anfavea, associação que representa as fabricantes de veículos instaladas no País. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Carro durante o Anfavea Visions, na quarta-feira, 10, Calvet afirmou: “Vão sobrar umas quatro ou cinco marcas chinesas. O resto vai morrer pelo caminho”.
Competição global e altos investimentos
O executivo destacou que a competição na indústria automotiva mundial se tornou um jogo para poucos e fortes players, já que o desenvolvimento de um único carro novo exige investimentos da ordem de R$ 2,5 bilhões. Segundo Calvet, o próprio governo chinês estimula a visão darwinista de que apenas os mais fortes sobreviverão no mercado de veículos elétricos e híbridos. “A BYD, por exemplo, já é uma grande vencedora na China e está consolidada globalmente. Agora resta ver quais serão os outros grupos que conseguirão permanecer de pé”, avaliou.
Fusões e aquisições como tendência
O dirigente entende que o mercado automotivo como um todo deve seguir uma tendência global de fusões e aquisições nos próximos anos para dar conta dos investimentos massivos em novas tecnologias, como eletrificação e inteligência artificial. No Brasil, ele alerta que esse movimento de consolidação deve atingir em cheio também a cadeia de fornecedores locais.
Riscos para marcas tradicionais
Ainda que muitas empresas chinesas não sobrevivam no longo prazo, Calvet entende que a agressividade atual delas representa um risco para as marcas tradicionais instaladas no Brasil. “Durante muito tempo fez sentido as montadoras produzirem carros no País, com uma cadeia produtiva longa por aqui. Agora, com novas marcas chegando e uma pressão de custo gigantesca, pode ser preciso repensar esse modelo de negócio”, disse. O resultado, aponta ele, pode ser uma debandada das fábricas instaladas no País.
Exemplo da Austrália
O presidente da Anfavea lembrou o caso da Austrália, onde a desindustrialização ocorreu em efeito dominó. O país, que chegou a fabricar quase meio milhão de veículos por ano, viu Ford, Holden (GM) e Toyota fecharem suas linhas de montagem locais em apenas quatro anos após o corte de subsídios do governo. Hoje, 100% dos carros vendidos na Austrália são importados. “A minha pergunta é: nós ainda seremos players relevantes?”, questionou Calvet. Para ele, sustentar a posição do Brasil como o sexto maior mercado automotivo e oitavo maior produtor de veículos do mundo exige manter a estrutura industrial e de engenharia. “Construir é difícil, destruir é muito rápido”, alertou, mencionando o risco de matrizes estrangeiras encerrarem operações no Brasil para proteger empregos em seus países de origem.
Defesa de um ‘Inovar-Auto 2’
Para o líder da Anfavea, a atual política automotiva do governo federal, o Mover, não é suficiente para conter o avanço dos importados e evitar o encolhimento da indústria brasileira. “Precisamos de um Inovar-Auto 2”, disse, referindo-se a uma continuidade do programa que vigorou entre 2013 e 2017. “Precisamos de uma política pública muito mais potente, que não se limite a algumas taxações ou a um Imposto de Importação mais alto”, defendeu.
Foco no financiamento da cadeia de fornecedores
O principal foco desse socorro governamental deveria ser a oferta de financiamento barato e subsidiado para as empresas que integram a cadeia de fornecedores, opinou Calvet. “Diferentemente das montadoras, que têm capital transnacional e sobrevivem com a ajuda do dinheiro da matriz, muitas empresas de autopeças têm um arranjo familiar no Brasil e menor capacidade de investimento. Elas não aguentam injetar bilhões a cada dois anos para mudar uma linha de produção.”
Com isso, Calvet apontou que esperar por uma “autorregulação” do mercado automotivo brasileiro é um caminho perigoso. Ainda que ocorra a projetada quebra de várias marcas chinesas nos próximos anos, a indústria local precisará de incentivos para sobreviver — principalmente as empresas de autopeças genuinamente brasileiras.



