Uma nova pesquisa nacional confirma a percepção entre os jovens. Dados do Instituto MDA Pesquisa, produzidos em convênio com o Consevitis-RS e o Sebrae Nacional, indicam que os consumidores de 18 a 24 anos estão entre os que mais têm incorporado o vinho ao cotidiano. Segundo o levantamento, 70% dos entrevistados afirmaram ter consumido vinho brasileiro nos últimos seis meses e 66% realizaram alguma compra no período.
Jovens redefinem o consumo de vinho
Durante muito tempo, o vinho carregou uma imagem de bebida reservada a ocasiões especiais, que exigia requinte e conhecimento. O cenário se mostra bem diferente hoje. A geração Z abraçou a bebida e inovou na forma de consumi-la: as taças estão no boteco, no happy hour, na lata e nos endereços considerados mais descolados.
Para o influenciador e entusiasta do vinho Juan Alba (@juanalba4), a Geração Z – pessoas nascidas entre 1997 e 2012 – tem desempenhado um papel importante nessa transformação. "Eles não têm compromisso nenhum com essa tradição. Querem se divertir, provar coisas novas e gostam de vinhos mais leves, mais frescos e servidos em temperaturas mais baixas", afirma.
Menos status, mais experiência
Se o vinho já foi visto como um símbolo de sofisticação distante, hoje ele aparece em ambientes mais despojados e acessíveis. Para a relações-públicas Sophia Gaspar, de 22 anos, o vinho continua carregando certa aura sofisticada, mas deixou de ser algo restrito. "Vejo o vinho hoje como uma bebida muito democrática. Ele pode ser acessível para quem quiser e mais caro para quem quiser também. Hoje existem muitos bares de vinho em São Paulo que ajudam a quebrar essa ideia de que vinho só se toma em restaurante ou em ocasiões especiais."
A própria forma de escolher um rótulo segue uma lógica diferente da que dominava gerações anteriores. Indicações de amigos, embalagens criativas e experiências compartilhadas nas redes sociais passaram a ter tanto peso quanto a região produtora ou a safra. Para Thomas Sampaio, idealizador do perfil no Instagram @jovemdovinho, as redes sociais se tornaram a principal porta de entrada para quem deseja entender mais sobre a bebida. "O jovem hoje está diante de uma abundância de informação sobre vinho. O desafio é separar o que realmente tem qualidade do que é apenas opinião."
Happy hour ganha nova bebida: vinho às 17h30
Antes cerveja e drinques dominavam os encontros após o expediente; agora, o vinho vem conquistando espaço nesse território, a partir das 17h30. A mudança pode ser observada na rotina de estabelecimentos como o Vinho no Boteco, um bar de vinhos localizado em Pinheiros, em São Paulo. Segundo Alessandra Lembro, responsável pela comunicação da casa, o crescimento do público jovem aconteceu de forma natural. "O público chegou atraído principalmente pelo preço acessível e pela ausência de formalidade. O vinho bom sem cerimônia sempre foi a nossa proposta", diz. "Quando o cliente percebe que pode tomar uma taça de um rótulo interessante por um preço justo em um ambiente descontraído, o vinho deixa de ser intimidador e vira programa de semana."
O happy hour tem sido um dos principais motores desse movimento, como endossa Leandro Mattiuz, restaurateur, sommelier e sócio-fundador do Elevado Bar, na Vila Buarque. Promoções de taças, rodízios e cartas com opções acessíveis ajudam a transformar o vinho em uma escolha cotidiana. "Também vemos um consumo mais equilibrado, com pessoas que alternam com água, pedem opções sem álcool e não necessariamente estão buscando uma noite longa. Existe um olhar maior para a experiência como um todo", afirma Mattiuz.
Harmonizações improváveis conquistam os jovens
A quebra de protocolos não acontece apenas na forma de consumir, mas também no que acompanha a taça. Sophia lembra que uma de suas experiências mais marcantes recentemente foi combinar vinho com bao, tradicional pão asiático cozido no vapor. "Também já combinei vinho com chocolate, e para mim, foi transcendental. O sabor se acentuou muito, quase de maneira inexplicável". No TikTok, vídeos que testam combinações pouco convencionais, como vinho com sorvete, acumulam milhares de visualizações. Para especialistas, essa disposição para experimentar tem relação direta com uma transformação mais ampla da gastronomia contemporânea. "A gastronomia ficou mais diversa, mais democrática e mais aberta à experimentação. O vinho acompanha esse movimento", observa Juan Alba.
O vinho está ficando mais jovem?
Apesar do aumento do interesse entre os jovens, isso não significa que todos estejam mergulhando no universo da bebida da mesma forma. Thomas Sampaio acredita que existem diferentes perfis de consumidores convivendo atualmente. Enquanto alguns buscam conhecimento, origem e terroir, outros querem apenas uma bebida prática para determinadas ocasiões. "O cara que bebe vinho em lata na praia não necessariamente vai migrar para grandes vinhos franceses. Mas isso não é um problema. O importante é que o vinho passou a fazer parte de contextos onde antes ele nem existia."
Já para Juan Alba, o impacto dessa nova geração é ainda mais profundo. "Dizem que a geração Z não toma vinho. Eu acho exatamente o contrário: eles estão salvando o vinho." Talvez porque tenham deixado de perguntar qual é a forma certa de beber, e tenham começado simplesmente a beber.



