A Copa do Mundo movimenta os gramados, mas quando o assunto é poder, no universo do futebol, presidentes, dirigentes, técnicos e cartolas seguem sendo, em sua maioria, homens. Laura Ancona, executiva da Amazon, jornalista de formação e apaixonada por futebol desde a infância, questiona o ritmo dessa mudança e defende mais mulheres nos postos de comando do esporte.
Transformação começa pela representatividade
Para Laura, a transformação começa pela representatividade. “Não podemos ser o que não podemos ver”, afirma, citando a ativista americana Marian Wright Edelman. Ela lembra que o futebol feminino foi proibido por lei no Brasil até 1979 e que, por isso, não pode ser comparado a uma estrutura centenária como a do futebol masculino. Ainda assim, ela vê figuras como Leila Pereira, presidente do Palmeiras, e Marie-Louise Eta, primeira mulher a comandar um time masculino da elite europeia, como exemplos fundamentais. “As mulheres olham para elas e pensam não apenas ‘eu quero ser como ela’, mas também ‘eu quero ser tão boa quanto ela’. Isso é espelho.”
Presença feminina em cargos de decisão
Para acelerar a mudança, Laura defende medidas concretas. “Sou a favor da inclusão ativa: contratação intencional de mulheres para cargos de gerência e diretoria dos clubes e federações.” Na avaliação dela, esperar que a transformação aconteça sozinha significa aceitar um processo lento demais. “Tenho certeza de que isso acelerará o processo, e o talento que elas certamente vão demonstrar as ajudará a ascender mais rapidamente.” Para a executiva, as pioneiras de hoje já estão despertando uma nova geração de meninas para possibilidades que antes sequer existiam.
Impacto prático da presença feminina
Ao falar sobre o impacto da presença feminina nos espaços de decisão, Laura prefere exemplos práticos. Cita a implementação da biometria facial em 100% dos acessos aos estádios administrados pelo Palmeiras durante a gestão de Leila Pereira. “Isso reduziu exponencialmente a ação de cambistas e trouxe praticidade, segurança e transparência.” Ela destaca ainda a integração do sistema com a Secretaria de Segurança Pública, que permitiu a identificação e prisão de criminosos procurados pela Justiça. “Não estou dizendo que mulheres apenas acertam, mas elas talvez errem diferente dos homens. Por isso o equilíbrio é importante.”
História pessoal e sonhos futuros
Palmeirense desde os sete anos, Laura carrega uma história antiga com o futebol. Formou-se em Jornalismo para trabalhar na área e chegou a cobrir clubes paulistas, mas desistiu após enfrentar assédio no ambiente profissional. O sonho, porém, nunca desapareceu. Anos depois, um encontro com Leila Pereira reacendeu a ideia de participar da gestão do clube. “Sonho em contribuir com a gestão do Palmeiras como conselheira - e, quem sabe, ir além”, diz. Ela vê na filha Tetê, goleira de 10 anos observada por olheiros, um retrato do futuro que imagina para o esporte. “O futuro do futebol também passa pelas mulheres - nos queiram aqui ou não.”



