Livro 'Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins' reúne 41 textos inspirados na cantora
Livro sobre Angela Ro Ro reúne 41 textos inspirados na cantora

O livro Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins, organizado por Marina Ruivo e lançado neste mês de junho pela editora Garoupa, reúne 41 textos inspirados na vida e na obra da cantora, compositora e pianista carioca Angela Maria Diniz Gonsalves (5 de dezembro de 1949 – 8 de setembro de 2025). A obra é o terceiro volume da série “Leia esta canção”, que já teve edições dedicadas a Beto Guedes (2023) e Ednardo (2024).

Tom confessional e visceral

O pensamento da cantora Bárbara Eugênia sobre o primeiro álbum de Angela Ro Ro, lançado em 1979, dá o tom do livro: “É tudo tão cheio de vida que se poderia dizer que essa pessoa viveu cem anos, e foram só trinta. Ro Ro se despe de tal forma que assusta, de tão real. Todo o desejo, a raiva, o grito, o vômito. Toda aquela ânsia de amar que faz parte do seu humano e que poucos ousam revelar”.

Como o subtítulo sinaliza, o livro agrupa textos de naturezas diversas. A maioria dos autores optou pelo formato ficcional do conto, como Luciana Lima Silva, autora de “Balada da (des)arrasada”, e Miriam Palma, que escreveu “Tola”, ambos inspirados nas canções “Balada da arrasada” e “Tola foi você”, respectivamente – ambas do álbum de estreia de 1979.

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Foco no álbum de estreia

O foco preferencial no antológico álbum de estreia de Angela Ro Ro – considerado um dos maiores discos da música brasileira de todos os tempos – é o traço que alinha a maioria dos 41 textos. “É o disco de uma mulher intensa e inteira que rasga a carne e mostra os ossos sem medo algum, mesmo estando no Brasil ditatorial de 1979. Muito mais do que falar de amor, ele fala sobre coragem”, escreve a cineasta e fotógrafa Mery Lemos no texto “Angela”.

O jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches contribui com o texto analítico “Não foi fácil ser Angela Ro Ro”, um alentado obituário publicado quatro dias após a morte da artista. Mesmo não sendo inédito, o texto foi incluído por sua qualidade. Já o escritor Santiago Nazarian oferece “Fossa nova”, poema que define como “uma letra retrocontemporânea para Ro Ro”.

Relatos reais e emocionantes

Fora da ficção, destaca-se o relato do cantor e jornalista Márvio dos Anjos sobre a experiência traumática de ter aberto um show de Angela Ro Ro no Sesc Pompeia, em 2007 ou 2008. Intitulado “Abrir o show de um demônio”, o texto expõe a face mais sombria da cantora, conhecida por seu temperamento irascível. O relato é tocante pela sinceridade e por ter sido escrito sem rancor, com a distância do tempo.

Também merece menção o texto do jornalista, músico e poeta Rodrigo Carneiro, “Nossa mulher biônica”, que narra o turbilhão de emoções ao assistir a um show de Ro Ro no mesmo Sesc Pompeia em 2008. Carneiro lembra a violência física e psicológica sofrida pela artista nos anos 1980, quando Ro Ro apanhava de policiais por não se curvar às autoridades, e recorda sua paixão à primeira audição pela cantora aos 12 anos, ao ouvir o bolero “Simples carinho” (João Donato e Abel Silva, 1982).

Perfil biográfico e impacto cultural

A jornalista Carime Elmor, no texto “Essa era a minha noitada: sair atrás de um piano”, traça um perfil biográfico de Ro Ro a partir do relato da noite de 22 de novembro de 1992, quando a cantora invadiu o palco do Cine Theatro Apollo em Barbacena (MG) e interrompeu um recital de piano para começar seu próprio show, já atrasado em duas horas. Pelo ato, Ro Ro foi moralmente linchada pelo público e pela imprensa local. Elmor resume: “Angela Ro Ro tirava o sossego. Nunca foi afeita à necessidade de agradar”.

Em prosa ou verso, dentro ou fora da ficção, Angela Ro Ro – “a que tudo sentiu, disse, fez” – deixou um rastro de luzes e sombras. O cancioneiro dilacerante da artista, fruto de seu desassossego espiritual, continua a inspirar contos, canções, relatos e afins neste livro fiel ao intenso universo particular da cantora.

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