Boa parte dos investidores ao redor do mundo tem se perguntado, nas últimas semanas, se vale ou não investir em Elon Musk. Ainda que o questionamento tenha relação com o IPO da SpaceX, que conquistou mais de US$ 2,65 trilhões em valor de mercado em apenas três pregões completos, os dados que podem subsidiar o debate ainda são da primeira companhia de capital aberto do agora trilionário, a Tesla.
A discussão sobre apostar ou não em Elon Musk passa, inevitavelmente, pela análise comparativa entre a Tesla e outras companhias que representam melhor os vetores dominantes de crescimento global atualmente, como a Nvidia no campo da inteligência artificial.
Desempenho na B3: Tesla muito atrás da Nvidia
De acordo com estudo da Quantum comparando o desempenho dos Brazilian Deposit Receipts (BDRs) das duas companhias, negociados na B3, entre outubro de 2022 e junho de 2026, enquanto a Tesla acumulou alta de 77% em reais, a Nvidia registrou valorização de 1.499%. Embora o desempenho da Tesla seja positivo, ele fica muito distante daquele apresentado por companhias alinhadas aos vetores mais fortes de crescimento global, explica Pedro Teberga, especialista em negócios digitais e professor da Faculdade Einstein.
A diferença se torna ainda mais evidente quando se considera o risco. A Tesla apresentou volatilidade anualizada próxima de 58%, acima dos cerca de 49% da Nvidia, além de uma queda máxima de aproximadamente 56%, contra 39% da rival. Na interpretação do especialista, isso significa que a empresa não apenas entregou menor retorno, como também exigiu maior tolerância ao risco, comprometendo seu desempenho ajustado.
Efeito eleição americana foi temporário
Após a eleição americana, em um momento de maior exposição política de Musk, a Tesla chegou a superar a Nvidia em desempenho. No entanto, esse movimento foi revertido rapidamente. “Logo após a eleição americana, em um momento de máxima exposição política de Musk, a Tesla chegou a superar a Nvidia em desempenho. À medida que a percepção do mercado mudou, o movimento se inverteu. Na janela mais recente do estudo, a Tesla caiu 8,6%, enquanto a Nvidia avançou cerca de 11%”, diz Teberga.
Dados comparativos entre BDRs da Nvidia e Tesla na B3 (fonte: Quantum)
- Tesla: alta de 77% (out/2022 a jun/2026), volatilidade anualizada de 58%, queda máxima de 56%
- Nvidia: alta de 1.499%, volatilidade anualizada de 49%, queda máxima de 39%
Deterioração operacional da Tesla
Esse cenário também está diretamente relacionado à deterioração operacional da Tesla. Em 2025, a empresa registrou queda de 9% nas vendas de veículos, a maior de sua história, enquanto as entregas acumulam dois anos consecutivos de retração. Ainda assim, a ação segue negociada a múltiplos elevados, entre 190 e 200 vezes o lucro estimado, indicando que grande parte do valor está ancorada em expectativas futuras.
Essas expectativas estão concentradas principalmente em projetos como robotáxis e robôs humanoides. No entanto, como afirma o especialista, “boa parte dessa precificação ainda depende da promessa futura” dessas iniciativas, que seguem atrasadas em relação ao cronograma original. Isso amplia a assimetria da tese e reforça o caráter prospectivo do investimento.
“Apostar em Musk hoje é apostar muito mais na capacidade futura de execução do empresário do que nos fundamentos atuais do negócio”, afirma Teberga.
Mais confiança que balanço
Ainda assim, há uma visão mais otimista. Teberga reconhece que as margens da Tesla voltaram a melhorar e que o mercado ainda enxerga potencial relevante caso as apostas em autonomia avancem. No entanto, ressalta que, neste momento, “a tese depende mais de confiança futura do que de balanço”, o que mantém elevado o grau de incerteza para investidores.
No caso da SpaceX, que realizou na sexta-feira (12) um dos maiores IPOs da história, os riscos seguem a mesma lógica de expectativas elevadas. O principal desafio estaria no possível descompasso entre valuation e geração de resultados em um negócio intensivo em capital.
Outros pontos de atenção incluem a crescente integração entre SpaceX, xAI e X, além da concentração de receitas — especialmente na Starlink — e o chamado “risco Musk”, associado à centralização de decisões e à forte exposição política do empresário. Esse contexto, somado a possíveis restrições de liquidez em caso de free float reduzido, pode elevar a volatilidade do ativo após a abertura de capital, afirma o especialista.
Cenário macro: 2026 pode ser ano de mega IPOs
Por fim, Teberga insere essa discussão em um cenário mais amplo. Para ele, 2026 pode marcar “um dos maiores ciclos de abertura de capital já vistos nos Estados Unidos”, com forte concentração de liquidez em empresas ligadas à inteligência artificial. Nesse contexto, os mega IPOs funcionarão como um teste decisivo para o mercado: se forem bem-sucedidos, podem sustentar novas ofertas; caso contrário, há risco de fechamento rápido da janela e reprecificação dos ativos.



