A computação em nuvem não acontece nas nuvens, mas em data centers: estruturas de aço e concreto que demandam refrigeração, redes de telecomunicações e energia elétrica abundante, constante e, de preferência, limpa. Apenas no segmento de inteligência artificial (IA), as despesas de capital globais podem atingir US$ 5,5 trilhões até 2030, segundo o banco americano JPMorgan.
“Cada pagamento realizado, vídeo assistido, operação bancária, interação com inteligência artificial depende de uma infraestrutura física intensiva em capital”, afirma Clara Sodré, analista de fundos da XP, no Espresso Outliers InfoMoney. “Essa combinação transformou os centros de processamento de dados em uma das principais teses globais de infraestrutura na próxima década.”
Ciclo de investimentos e expansão da infraestrutura
O avanço da IA, associado à consolidação da computação em nuvem e dos serviços digitais, desenha um ciclo de investimentos que se reflete diretamente na economia real. Estima-se que as despesas de capital das grandes empresas de tecnologia (as hyperscalers) alcancem US$ 650 bilhões em 2026 e superem US$ 1,1 trilhão em 2027. Uma parcela relevante será absorvida pelo desenvolvimento de infraestrutura física.
Devido ao alto volume de eletricidade exigido pelo processamento de dados, os aportes financeiros destinados aos sistemas de resfriamento e ao suprimento elétrico frequentemente superam os custos com os equipamentos de tecnologia propriamente ditos.
Consumo de energia equivalente ao Japão
A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que o consumo global de eletricidade dos data centers pode dobrar até 2030, alcançando cerca de 445 TWh por ano – patamar equivalente ao consumo anual do Japão. Nos Estados Unidos e na Europa, começam a surgir limites de oferta relacionados a transmissão e conexão à rede elétrica.
“Estamos falando de uma indústria que vai precisar expandir sua infraestrutura em ritmo acelerado para acompanhar a demanda”, afirma Clara. “Construir capacidade leva tempo. Bastante tempo nesse caso.”
Brasil como destino estratégico
No intervalo entre o ritmo de expansão da demanda por energia elétrica e as restrições físicas de novos projetos no exterior, o mercado brasileiro passa a ser avaliado como um destino estratégico para os aportes das grandes empresas de tecnologia. O interesse de investidores internacionais se justifica por uma combinação de vantagens operacionais e ambientais.
Como os operadores globais de tecnologia têm metas corporativas de descarbonização, a expansão de seus data centers requer acesso a fontes limpas em larga escala. No território nacional, cerca de 87% da matriz elétrica vem de fontes renováveis, com destaque para a geração hidrelétrica, eólica e solar.
Fortaleza: ponto de conexão global
No mapa de oportunidades para data centers, a cidade de Fortaleza se destaca. A capital do Ceará funciona como um ponto de amarração de múltiplos cabos submarinos de fibra óptica que ligam o país diretamente à América do Norte, à Europa e à África, reduzindo o tempo de resposta na transmissão de dados.
“Sob a ótica da informação, Fortaleza desempenha um papel semelhante ao dos grandes portos para o comércio global”, diz Clara. “É um ponto de entrada estratégico para um fluxo que conecta diferentes regiões do mundo.”
São Paulo: oferta contratada e previsibilidade
Outro destaque no Brasil é São Paulo, onde fica o maior data center do país na atualidade. No estado, uma parcela expressiva da capacidade projetada de produção de energia é contratada de forma antecipada para empresas como Amazon, Google, Microsoft e Meta. Para o investidor, a contratação antecipada da oferta confere previsibilidade aos fluxos de caixa, assemelhando-se aos contratos de longo prazo do setor imobiliário corporativo e de utilidade pública.
“É justamente essa combinação de crescimento estrutural da demanda e restrições de oferta que ajuda a explicar por que o setor passou a ocupar um espaço relevante nas discussões entre os investidores”, afirma a apresentadora do Espresso Outliers.



