A SpaceX (BDR: SPCX34) encerrou seu primeiro pregão no dia 12, e as bolsas americanas fecharam para o fim de semana. No entanto, a ação não deixou de ser negociada: ativos digitais representativos do papel continuaram operando, com o preço acelerando. Quando o mercado reabriu na segunda-feira (15), esses tokens já haviam antecipado uma alta de 6,5% na ação.
O fenômeno da tokenização de ativos reais
Esse episódio ilustra uma tendência crescente no mundo dos criptoativos: a negociação de versões digitais de ativos do mundo real, como ações, dentro das corretoras de criptomoedas. Esses contratos, conhecidos pela sigla RWA (Real World Assets), permitem exposição a empresas famosas a qualquer hora, sete dias por semana. Na Binance, os contratos perpétuos ligados à SpaceX tornaram-se o segundo produto de derivativos mais negociado, atrás apenas do Bitcoin.
Como funciona a tokenização de ações?
O processo envolve transformar uma ação em um token negociável em blockchain, que pode ser comprado e vendido a qualquer momento. Quatro elementos principais são essenciais para o investidor entender:
- Sem limite de horário: Diferente da bolsa tradicional, que opera apenas em dias úteis e horário comercial, os tokens podem ser negociados 24 horas por dia, 7 dias por semana. A SpaceX abriu capital em junho, mas as exchanges já ofereciam formas de apostar em suas ações semanas antes da estreia.
- Lastro: Os ativos podem ou não ser lastreados em ações reais. Contratos perpétuos, como os da SpaceX, são sintéticos: buscam acompanhar o preço sem vencimento e sem ter o papel como ativo subjacente. Já os tokens à vista, segundo algumas exchanges, são lastreados em ações reais sob custódia. Um desses tokens foi negociado no fim de semana de estreia e antecipou a alta. Mesmo tokens lastreados geralmente dão apenas exposição ao preço, sem direito a voto e nem sempre a dividendos.
- Compra fracionada: É possível ter exposição a uma ação cara comprando um pedaço dela. Na Binance, o valor mediano das operações com ações tokenizadas é de apenas US$ 18,81, enquanto o preço médio por unidade é cerca de US$ 680. Cerca de 80% dos investidores que negociam esses ativos são de países emergentes, e 93% das ordens envolvem frações de um ativo.
Regulação no Brasil
No Brasil, esses produtos esbarram na regulação. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) entende que contratos derivados do preço de uma ação são derivativos, e exchanges não podem ofertá-los sem autorização prévia. Isso afasta a oferta desses produtos a investidores locais.
Mercado de trilhões de dólares
A tokenização tornou-se uma das poucas frentes em expansão no setor de criptomoedas, que enfrenta volumes em queda. Em maio, os contratos perpétuos de RWA bateram recorde de volume negociado, com US$ 211 bilhões, alta de 10,4% sobre abril, segundo a CoinDesk Data. Considerando todos os tipos de ativos tokenizados, incluindo títulos públicos e fundos, o estoque chegou a US$ 32 bilhões em maio, o triplo de 12 meses antes, conforme o Itaú BBA. A maior fatia é de títulos do Tesouro americano tokenizados, com US$ 13,4 bilhões, de gestoras como BlackRock e Franklin Templeton.
Grandes bancos também entraram nesse espaço. O JPMorgan usa sua plataforma Kinexys para liquidar ativos tokenizados em blockchain, e o Goldman Sachs expandiu sua mesa de ativos digitais institucionais. Para o futuro, a Binance projeta que o mercado de ativos tokenizados pode chegar a US$ 6,78 trilhões no cenário mais otimista, equivalente a 645 vezes o tamanho atual, caso esses produtos se tornem padrão entre investidores de varejo e institucionais.



