ONG ReforAMAR transforma casas precárias em lares dignos no RN
ReforAMAR: reformas que devolvem dignidade no RN

A potiguar Fernanda Silmara, de 30 anos, transformou uma experiência pessoal em um projeto de grande impacto social. Quando criança, o barulho da chuva era um alerta dentro de sua casa: a família precisava arrastar colchões e baldes para conter as goteiras. "Não era vergonha de ser pobre, era vergonha do mofo, do cheiro forte e das goteiras", relembra. Formada em engenharia civil, Fernanda viu sua própria residência ser reformada em 2017, o que mudou sua visão sobre a construção civil. "Foi aí que comecei a entender que construção civil não é só obra. É transformação social", afirma.

A partir dessa vivência, ela fundou a ReforAMAR, uma associação sem fins lucrativos que realiza reformas em casas e espaços comunitários em situação de vulnerabilidade no Rio Grande do Norte. Desde 2018, a ONG já concluiu 68 reformas em cinco municípios da Grande Natal: Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Macaíba. Em média, são dez obras por ano, mas em 2025 o número chegou a aproximadamente 20. Apesar do avanço, a fila de espera já ultrapassa 300 famílias, algumas cadastradas desde 2018.

Da reforma à dignidade

Os relatos das famílias atendidas mostram o impacto profundo das obras. Uma delas não possuía banheiro dentro de casa, apenas um espaço improvisado no quintal com vaso quebrado. "Quando entraram na casa reformada, a primeira coisa que quiseram ver foi o banheiro", recorda Fernanda. "Para muitas pessoas, banheiro é algo tão básico que nem percebem o privilégio que têm".

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Geilza Lidiele França, de 33 anos, mãe de dois filhos, mora há 12 anos na mesma casa com o marido, moto entregador que ganha cerca de um salário mínimo. "Hoje tenho um ambiente mais iluminado, mais protegido, sem goteiras. Meu banheiro foi totalmente reformado. Tomar banho é a maior alegria do mundo", conta.

Severina Madureira Nogueira, de 61 anos, aposentada que recebe um salário mínimo, morava de favor antes da reforma. "Minha casa hoje é um palácio. O povo passa e diz: 'que coisa linda!' É muita emoção", diz.

A assistente social Walba Alves de Melo destaca os impactos na saúde emocional e nas relações familiares. "São três pontos: insegurança, estresse e conflitos. A coabitação em espaços reduzidos transforma o ambiente doméstico em um local de tensão contínua", explica. Para ela, a moradia é extensão da identidade: "Discutir habitação é falar de cuidado, cidadania, saúde, inclusão e justiça social".

Patrícia Luz, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RN (CAU-RN), afirma que a precariedade habitacional vai além da estrutura física. "Moradia adequada não deve ser vista como privilégio, mas como um direito garantido com responsabilidade social e sustentabilidade ambiental".

Ana Adalgisa, presidente em exercício do Confea, reforça a necessidade de políticas públicas permanentes. "Precisamos de uma política habitacional que pense sustentabilidade, infraestrutura básica e planejamento urbanístico".

Condições de moradia no RN

Segundo estudo da Fundação João Pinheiro com dados do IBGE, o Rio Grande do Norte tinha, em 2023, déficit habitacional de 99.623 moradias (7,82% dos domicílios). Em 2025, 58 mil domicílios tinham paredes sem revestimento; 21% possuíam piso de cimento; 71,1% tinham telhado sem laje; e quase 55% não eram atendidos pela rede de esgoto. Em 12% das residências, a água chegava apenas um a três dias por semana. Esses números representam milhares de famílias convivendo com infiltrações, improvisos sanitários e risco de doenças.

Um modelo que nasce da experiência pessoal

A ReforAMAR atua em três frentes: reformas habitacionais, capacitação profissional e geração de receita. O bazar solidário, criado em 2022 em um espaço cedido por uma empresa de construção no bairro Candelária, Natal, comercializa móveis, eletrodomésticos, roupas e utensílios doados, arrecadando em média R$ 12 mil por mês (pico de R$ 18 mil). Em quatro anos, cerca de 22 mil itens (150 toneladas) foram reaproveitados por meio de revenda social, doações ou uso direto nas reformas. Entre 2022 e maio de 2026, mais de 100 famílias adquiriram itens a preços simbólicos.

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A ONG também capta recursos por editais, parcerias, oficinas, eventos, rifas e doações. O custo médio mensal é de R$ 55 mil, e cada obra custa cerca de R$ 40 mil, podendo durar até quatro meses. Em 2025, o metro quadrado da construção civil no RN era de R$ 1.808,67 (SINAPI), enquanto o salário mínimo era de R$ 1.518. Em 2024, 70,1% da população potiguar vivia com até um salário mínimo (IBGE). "Muitas famílias jamais teriam condições de reformar a casa", diz Fernanda.

Empreendedorismo social

Mona Nóbrega, gerente de Negócios de Impacto do Sebrae RN, explica que a ReforAMAR "alinha geração de receita com resolução de um problema social por meio de reformas subsidiadas. O bazar é peça central: a economia circular gera recursos para investir em moradia digna". Ela destaca que o empreendedorismo social cria modelos mais acessíveis por nascer da vivência direta dos problemas.

A trajetória da ONG acompanha o avanço do empreendedorismo feminino no RN: o número de empresas com mulheres no quadro societário cresceu 78,6% nos últimos seis anos, de 79.658 para 142.273. Hoje, 45% das empresas potiguares têm participação feminina, mas na construção civil elas representam apenas 17,5%.

Capacitação e expansão

Entre outubro de 2025 e maio de 2026, a ReforAMAR capacitou 50 pessoas LGBTQIA+ em curso gratuito de elétrica, hidráulica, pintura, marcenaria e empreendedorismo. Três participantes ingressaram na construção civil durante a formação. A ONG também oferece orientação sobre formalização profissional e MEI.

Com apoio do Sebrae RN, a organização fortaleceu sua sustentabilidade financeira. "O Sebrae ajudou a enxergar o bazar como estratégia de sustentabilidade e economia circular", afirma Fernanda. Ainda dependente de parcerias, a ONG busca ampliar suas atividades.

Transformar lugar em lar

A ReforAMAR mostra que a moradia envolve aspectos emocionais, econômicos e sociais. "Uma casa digna muda como a pessoa se vê e como acredita que merece viver", resume Fernanda. Para muitas famílias, uma descarga funcionando deixou de ser detalhe para se tornar símbolo de dignidade. A ONG tenta reconstruir não apenas paredes, mas a sensação de finalmente poder chamar um lugar de 'meu lar'.

Serviço da ReforAMAR
Endereço: Rua Aguinaldo Gurgel Júnior, 424, Candelária, Natal - RN
Funcionamento presencial: sexta e sábado, 9h às 15h
Funcionamento online: terça a sábado, 9h às 15h
WhatsApp: (84) 98820-2018