Naturebas 2026: Feira de Vinhos Naturais Cresce e Anuncia Expansão
Naturebas 2026 Cresce e Anuncia Expansão para RJ e Chile

Peço licença para iniciar esta coluna com um relato pessoal. Já fui barrada na porta da Naturebas, hoje a maior e mais importante feira de vinhos naturais do Hemisfério Sul. Isso ocorreu em sua primeira edição, em 2013, quando o evento ainda era realizado nos salões da Enoteca Saint VinSaint, restaurante que funcionou até o ano passado, em São Paulo.

Sem imaginar o potencial da feira, deixei para comprar meu ingresso na hora, em um sábado à tarde. Lis Cereja, a organizadora, recebeu-me na porta com um sorriso e, simpática, informou que os ingressos haviam se esgotado. E que não abriria uma exceção para uma jornalista que estava ali para divulgar o evento. Aprendi a lição: a partir do ano seguinte, sempre estive entre as primeiras a adquirir meu ingresso.

A cena ilustra o perfil de Lis, uma pioneira na defesa do vinho natural no Brasil. Na primeira edição, 20 produtores se espremiam entre 100 visitantes nas duas salas do restaurante, sem imaginar que os chamados vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos se destacariam no mundo do vinho.

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Lis Cereja: Uma Visionária

Lis ousou ao investir em suas próprias crenças — ela é adepta de uma gastronomia sem agrotóxicos e da relação mais próxima entre produtores e consumidores — e se transformou em referência no tema. O melhor exemplo é que nos próximos dias 27 e 28 de junho a Naturebas acontece no Tendal da Lapa, em São Paulo, com 180 produtores de 14 países e a previsão de receber mais de 3 mil visitantes.

Em breve, Lis pretende levar a feira também para o Rio de Janeiro e o Chile, como ela conta a seguir. Sobre a Naturebas 2026, ainda restam alguns (poucos) ingressos, que podem ser adquiridos por R$ 239 no site www.feiranaturebas.com.br.

Entrevista com Lis Cereja

Paladar: Nestas 14 edições, quais foram os principais destaques da Naturebas?

Lis Cereja: Pergunta difícil, mas acho que foram alguns dos emblemáticos figurões do mundo natural, como Stefano Bellotti (defensor da agricultura biodinâmica na Cascina Degli Ulivi, no Piemonte, falecido em 2018); Mateja Gravner (filha de Josko Gravner, referência nos vinhos em ânfora, no norte da Itália); Jean-Pierre Robinot (mítico produtor do Loire) e John Wunderman (da Pheasant's Tears, de vinhos na Geórgia).

Tem algum produtor de vinho que você gostaria que viesse para a Naturebas e ainda não veio?

Lis: São centenas. Mais um que estou tentando convencer há muito tempo é Louis Antoine Luyt. Ele é pioneiro na elaboração de vinhos naturais e grande pai do conceito de pipeño (vinhos elaborados por métodos artesanais) no Chile. Louis foi pupilo e amigo de Marcel Lapierre, um dos fundadores do movimento do vinho natural na França. Mas as nossas agendas ainda não se encontraram.

Quais os destaques desta edição?

Lis: São muitos. Entre eles, tem o Luís Henrique Zanini, da Era dos Ventos, um dos projetos mais influentes e pioneiros da história recente do vinho brasileiro natural. Tem o Zulmir e Neusa de Lucca, pioneiros da viticultura orgânica brasileira, em Caçapava do Sul. Tem a Krontiras, que é uma das referências da biodinâmica argentina, fundada pelo casal grego Konstantinos e Claudia Krontiras em Mendoza. Tem Daniela Lorenzo e José Luis González Bastías, que preservam uma das mais antigas propriedades vitivinícolas familiares no Maule, no Chile.

Quando você começou, pouco se falava dos vinhos naturais. O que mudou neste tempo?

Lis: Mudou muita coisa. Hoje muita gente fala do assunto, mas infelizmente o que ainda me frustra é que se fala muito superficialmente. Não tenho orgulho de ser a única escritora no Brasil a ter um livro sobre vinhos naturais. Pelo contrário. Precisamos demais de profissionais realmente interessados, que dediquem sua vida a estudar de maneira profunda e formar outros profissionais. Vivemos uma época em que vinho natural se tornou moda.

Quais os seus planos de expansão?

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Lis: Nossa ideia é manter a feira com este mesmo tamanho em São Paulo, e aos poucos crescer para o Rio de Janeiro e outros países da América Latina. No futuro, a Naturebas se tornará uma plataforma de vendas direta dos produtores para os consumidores. Mais de 30% dos expositores que vêm para o Brasil sem um representante acabam com contratos com alguma importadora. O meu novo projeto, a Caravana, uma nova agência de curadoria de viagens, tem um papel fundamental no desenho de viagens que usam sustentabilidade, gastronomia, cultura, vinhos e história.

Qual o futuro do vinho natural?

Lis: Vinho natural não tem volta. Seja por consciência agrícola, seja por querer um vinho que expresse realmente o terroir, seja porque ninguém aguenta mais os vinhos pasteurizados, seja por moda, o mundo do vinho natural só cresce e a consciência das pessoas também.