Operação Placebo: empresário preso por remédio falso contra câncer no RS
Operação Placebo: empresário preso por remédio falso no RS

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou nesta segunda-feira (29) a Operação Placebo, que investiga um esquema de fraude em orçamentos e suspeita de falsificação de medicamentos fornecidos a pacientes com câncer. Um empresário foi preso e 57 mandados de busca e apreensão estão sendo cumpridos em cinco estados. Entre os alvos estão um médico oncologista e três advogados.

O empresário Lisandro Henriques Hermes, de São Gabriel, foi preso e é apontado como o principal articulador do grupo. Segundo a polícia, ele controlava direta ou indiretamente empresas que participavam de concorrências em processos judiciais, como a Licifarma e a LH Medicamentos. Ele negou as acusações e disse desconhecer a suspeita de falsificação. Com ele, foram apreendidas dezenas de caixas de remédios, suplementos e cartelas sem identificação. Ele alegou que os produtos foram descartados por uma fábrica por controle de qualidade, mas não soube explicar por que a própria fábrica não fez o descarte.

Esquema envolvia médico e advogados

De acordo com o delegado Daniel Severo, o oncologista Fernando Borges da Silva, de Santa Maria, era responsável por captar pacientes e encaminhá-los a advogados do esquema. “Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. Duas pacientes nos confirmaram que é ele quem indica. Aliás, ele tem cartões desses advogados à disposição para entregar para os pacientes que não conseguiram o medicamento nas farmácias do Estado”, explicou.

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Além do médico, os advogados Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner são alvos de mandados. Todos tiveram o exercício profissional proibido pela Justiça. A defesa do oncologista afirma que ele “nega a prática de qualquer conduta ilícita, está à disposição da Justiça e confia que os fatos serão devidamente esclarecidos no curso das investigações”. Já a defesa de Rita Gabriela diz que ela “contribuirá para o completo esclarecimento da verdade” e que sempre exerceu a advocacia dentro da ética. Os outros dois advogados ainda não constituíram defesa, segundo a polícia.

Fraude em licitações e uso de laranjas

A polícia aponta que o núcleo jurídico acionava o núcleo empresarial para fraudar concorrências. “É uma articulação grande. O núcleo jurídico aciona o empresarial para fraudar a concorrência, ou seja, são só as farmácias ligadas a eles que ganham”, detalhou o delegado. Lisandro utilizava sócios formais, conhecidos como “laranjas”, para ocultar o verdadeiro controle dos negócios.

Até agora, foram identificadas 39 vítimas do esquema, sendo que sete faleceram durante o tratamento. Ainda não se sabe se as mortes foram causadas pela medicação. O g1 procurou as defesas dos investigados e aguarda retorno.

Remédio falsificado com erros na embalagem

A investigação começou quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel desconfiou de falsificação ao analisar as embalagens do medicamento Enhertu (trastuzumabe deruxtecana), usado no tratamento de câncer de mama. Uma única compra chegava a custar R$ 800 mil, com dinheiro público bloqueado pela Justiça. O remédio apresentava inconsistências e erros de grafia na embalagem.

A Anvisa já havia determinado, em fevereiro de 2026, a apreensão e proibição da comercialização do lote 416466 do Enhertu, após a fabricante Daiichi Sankyo Brasil identificar frascos com dimensões superiores ao padrão, descascamento nas tampas e divergências na coloração. O produto original possui tampa amarela com acabamento plástico, enquanto as unidades suspeitas apresentavam tampa metálica pintada de amarelo.

O que dizem Anvisa e laboratório

A Anvisa publicou a Resolução-RE nº 641, de 18 de fevereiro de 2026, determinando a apreensão e proibição da comercialização e distribuição do lote 416466. A orientação é para que distribuidores, farmácias, hospitais e demais serviços de saúde verifiquem seus estoques e interrompam imediatamente qualquer circulação do lote.

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A Daiichi Sankyo Brasil informou que tomou conhecimento de unidades falsificadas relacionadas a um lote específico identificado como 394373, que não corresponde aos produtos fabricados pela empresa. A empresa notificou a Anvisa e demais autoridades em junho de 2025 e colabora integralmente com as investigações.

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) disse que instaurará uma sindicância para apurar a situação assim que tiver conhecimento oficial dos fatos.