Imagens divulgadas pela Construtora Cidade Ltda, responsável pela obra, mostram que cerca de uma semana antes do desabamento da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, no interior do Acre, já eram visíveis movimentações no solo e rachaduras em uma área de mais de 16 mil metros quadrados no entorno da estrutura. Na ocasião, equipes técnicas começaram a identificar sinais de instabilidade no terreno onde a ponte está localizada, próximos a bairros da localidade. Nos dias seguintes, a situação piorou rapidamente com o surgimento de rachaduras, deslocamento de terra e desníveis em diferentes pontos ao redor da estrutura.
Contexto do desabamento
A ponte desabou na noite de sexta-feira (5) com quatro pessoas sobre ela. A estrutura estava interditada desde quinta-feira (4) devido ao risco de desabamento às margens do Rio Iaco. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento do colapso e mostram pessoas que ultrapassaram o bloqueio passando pela ponte. As informações sobre os feridos já foram divulgadas.
Ações da construtora
Com base nas informações técnicas, a Construtora Cidade encaminhou ao Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre), na quinta-feira (4), uma recomendação para que a ponte fosse interditada para passagem de pedestres e veículos por conta do risco iminente. Na quinta, o Deracre confirmou que o tráfego foi interrompido e que a passagem seria desviada para outra ponte metálica, conhecida como pontilhão.
Em nota, a construtora afirmou: "A Construtora Cidade ressalta que mais estudos técnicos estão sendo realizados pela equipe contratada, composta por especialistas de reconhecida experiência nacional nas áreas de geotecnia, hidrologia, estruturas, fundações e topografia." Uma equipe de engenheiros, geólogos e o proprietário da empresa chegam ao Acre na noite de segunda-feira (8) e seguem para Sena Madureira na manhã de terça-feira (9). O Ministério Público do Acre acionou a Defesa Civil Municipal para fazer vistorias e verificar a necessidade de remoção de moradores nas áreas mais críticas.
Causas do acidente
A construtora atribui o acidente ao fenômeno conhecido como "terras caídas", comum na região amazônica, que ocorre às margens dos rios devido ao colapso das margens ou erosão acelerada, especialmente em áreas de alta declividade. "As avaliações preliminares apontaram indícios compatíveis com processo de instabilidade geotécnica conhecido como fenômeno de 'terras caídas', caracterizado por movimentações de grandes massas de solo associadas a processos erosivos e às variações naturais dos níveis dos rios", explicou a empresa.
O g1 questionou a empresa se a obra foi projetada considerando as peculiaridades da região e se o projeto previa essa dinâmica das margens do rio, mas aguarda retorno.
Medidas judiciais
A Justiça do Acre deferiu parcialmente as medidas do governo que pedem a responsabilização da Construtora Cidade. Na decisão, foi determinado que a empresa adote medidas emergenciais para proteção da população e mitigação dos riscos. Foram fixadas multas diárias de até R$ 200 mil em caso de descumprimento. As ações foram julgadas durante o plantão judicial de sábado (6).
A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e o Deracre entraram na Justiça no sábado (6) com duas medidas para assegurar a responsabilização. O objetivo é garantir a adoção de providências pela construtora e a preservação de recursos para reparar os danos. Entre as determinações estão: prestar assistência material às vítimas, incluindo despesas médicas não cobertas pelo SUS; enviar equipe técnica para vistoriar a estrutura remanescente e apresentar laudo em cinco dias; adotar medidas mitigatórias emergenciais, como sinalização e isolamento. O governo também pediu bloqueio cautelar de bens da construtora, mas a Justiça entendeu que isso deve ser analisado pelo juiz responsável com mais detalhes.
Medidas administrativas
O governo publicou no sábado (6) dois decretos no Diário Oficial do Estado. O Decreto nº 11.902/2026 determina que o Deracre instaure um Procedimento Administrativo de Responsabilização (PAR) contra a Construtora Cidade, com prazo de 90 dias para conclusão, e suspende preventivamente contratos e pagamentos vinculados à empresa na administração estadual. O Decreto nº 11.903/2026 institui uma Comissão Especial de Análise Técnica para investigar as causas do desabamento, composta por representantes de órgãos estaduais, como PGE, Deracre, Seop, Sehurb, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros. A comissão deve apresentar relatório final em 30 dias, apontando causas técnicas, avaliando fiscalização e manutenção, examinando a execução contratual e apresentando recomendações.
Investigações policiais e do MP
A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar as causas, com conclusão prevista em 30 dias. O delegado-geral Pedro Paulo Buzolin confirmou que peritos já fizeram perícia preliminar no local. Três delegados da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) foram designados para a investigação. O Ministério Público do Acre (MP-AC) também instaurou procedimento e solicitou ao DNIT uma perícia para identificar falhas no projeto, execução ou material.
Histórico da ponte
A Ponte Frei Paolino Baldassari foi inaugurada em 19 de dezembro de 2023, com 232 metros de extensão e custo de mais de R$ 36 milhões. Segundo o Corpo de Bombeiros, cerca de 60% da estrutura (aproximadamente 139 metros) desabou. A ponte ligava dois distritos de Sena Madureira e, à época da abertura, a prefeitura estimava que beneficiaria 2,5 mil pessoas. Os escombros permanecem no leito do Rio Iaco, e o Deracre aguarda a chegada dos representantes da empresa para iniciar a remoção.
Nota da Construtora Cidade na íntegra
A Construtora Cidade manifesta solidariedade às pessoas atingidas e familiares. Informa que a ponte foi construída conforme normas vigentes, recebida pelo DERACRE no final de 2023 e operou sem registro de anomalias estruturais até recentemente. Há cerca de uma semana, equipes técnicas observaram sinais de instabilidade no terreno, que evoluíram com rachaduras e deslocamentos. A empresa mobilizou especialistas e, na quinta-feira (4), recomendou a interdição total. As avaliações indicam fenômeno de "terras caídas", caracterizado por movimentação de grandes massas de solo. A empresa afirma que mais estudos estão sendo realizados e permanece à disposição.



