Condenado pela Tragédia do Baldo é preso em Cuiabá 42 anos depois
Condenado pela Tragédia do Baldo é preso em Cuiabá

Aluísio Farias Batista, 69 anos, motorista condenado pela "Tragédia do Baldo", foi preso nesta sexta-feira (26) em Cuiabá, Mato Grosso, reacendendo a memória de uma das maiores tragédias do Rio Grande do Norte. O acidente ocorreu durante o carnaval de Natal em 1984, quando um ônibus desgovernado atingiu uma banda de música e foliões, matando 19 pessoas e ferindo gravemente outras 12. Quarenta e dois anos depois, familiares das vítimas ouvidos pelo g1 relataram que a captura representa uma resposta da Justiça, embora incapaz de apagar o sofrimento.

Famílias reagem à prisão

Maria do Céu Pinheiro de Assis, 75 anos, viúva de Wellington Teófanes de Assis, morto aos 31 anos, reviveu cada detalhe daquela madrugada. O casal tinha um filho. Ela conta que o marido saiu na sexta de Carnaval para acompanhar os blocos e nunca mais voltou. "Ele era muito 'farrista', saiu para beber e eu fiquei em casa com minha filha e minha mãe", disse. Na manhã do sábado, percorreu hospitais até encontrar o corpo no necrotério do Hospital Walfredo Gurgel. "Quando eu fui ver, eu já reconheci os pés dele, quando foi abrindo a gaveta. Eu dei um grito e não tornei mais. Foi um momento muito difícil", relembrou. Apesar da dor, Maria do Céu afirma que perdoou o condenado há muito tempo. "É claro que senti quando vi a foto dele, eu me lembro. Saiu em todos os jornais, quando ele era novo, cabeludo. Mas eu não tenho palavras para dizer nada de mal para ele. Foi um episódio muito triste e que agora tem esse ponto final", declarou.

Joselúcia Merilym de Lima Gomes tinha 8 anos quando perdeu o pai, o sargento da PM Acelúsio Borges Gomes, que tocava na banda da corporação no momento do atropelamento. Ele morreu aos 33 anos, deixando esposa de 28 anos e três filhas pequenas. "Hoje, com 51 anos, tento me colocar no lugar da minha mãe e acho que teria enlouquecido. Ela sozinha para cuidar de mim com 8 e das minhas duas irmãs que tinham 7 e 2 anos", disse. Joselúcia conta que a mãe ficou anos sem receber pensão. Ao saber da prisão, encontrou a mãe emocionada. "Eu cheguei em casa agora, minha mãe chorando, chorando, abraçando com ela. Disseram que agora ela está em paz, agora a justiça foi feita. Nada traz de volta, mas bota um ponto final", afirmou.

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A bancária Adriana Banhos Teixeira perdeu a irmã Simone Banhos Teixeira, de 19 anos, na tragédia. Para ela, a prisão desperta um sentimento de resposta esperada. "Agora ele vai realmente cumprir a pena que foi atribuída pela justiça dos homens num acidente que há 42 anos tirou a vida de minha irmã e de mais 18 pessoas em plena juventude. E não vai trazer nenhuma vítima de volta, mas é uma resposta para a família dessas vítimas", declarou.

Trauma de quem testemunhou

O bancário aposentado Moisés Monteiro, 73, trabalhava no antigo Banco Sudameris na Av. Rio Branco. Ele havia encerrado o expediente por volta das 22h e estava lanchando próximo ao local quando ouviu o barulho do ônibus desgovernado e correu para ajudar no resgate. Ele ajudou a colocar feridos em táxis para o Hospital da Polícia Militar. "Eu escutei o barulho e fui correndo para tentar ajudar. Foi um caos", lembrou. As imagens permanecem vivas na memória. "Foi um desespero para socorrer as pessoas, eram muitos corpos no chão. Jamais irei me esquecer, passei uns 15 dias sem conseguir dormir", contou.

Como o condenado foi localizado

As investigações partiram da única fotografia disponível do condenado, registrada na época do crime. Segundo a Polícia Civil, os investigadores descobriram que o pai dele morreu em Tangará da Serra (MT), em 2021, permitindo o intercâmbio de dados entre as polícias dos dois estados. Durante a apuração, identificaram que Aluísio havia emitido um documento de identidade com seu nome verdadeiro em Mato Grosso em 1995 e, posteriormente, passou a usar a identidade de uma pessoa que morreu em Natal no ano seguinte. A identidade verdadeira foi confirmada por cruzamento de dados cadastrais, análises documentais e comparação facial. Quando os policiais chegaram à residência, ele apresentou inicialmente o nome falso, mas confessou após ser confrontado com as provas.

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Relembre a Tragédia do Baldo

O acidente aconteceu na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, durante o carnaval de Natal. Segundo a investigação da época, Aluísio Farias Batista dirigia um ônibus quando perdeu o controle na região do Baldo e atingiu integrantes de uma banda de música e participantes de um bloco carnavalesco. Cerca de cinco mil pessoas brincavam no bloco de rua naquele dia. Dezenove pessoas morreram e 12 ficaram gravemente feridas. Após o acidente, o motorista fugiu e permaneceu foragido por mais de quatro décadas. Historiadores associam o episódio à diminuição do número de blocos de rua e foliões no carnaval de Natal nas décadas seguintes. Após ser preso, ele foi encaminhado ao sistema prisional para cumprir pena de 21 anos de reclusão em regime fechado.

As vítimas foram: Abimael Florêncio Bernardo (18 anos), Acelúsio Borges Gomes (33), Astor dos Santos Dantas (27), Benedito Alves da Silva, Dinarte de Medeiros Mariz Neto (19), Esdras César da Silva (56), Francisco Alves da Silva (34), Jaeci Cabral de Oliveira, Jethe Nunes de Oliveira (32), João Felix de Lima (36), José dos Santos Xavier (47), José Luis da Silva (28), Luis Inácio da Silva (46), Milton Cevita de Brito (59), Murilo Alberto Viana da Silva (36), Rizomar Correia dos Santos (26), Simone Banhos Teixeira (20), Wellington Teófanes de Assis (31) e Wallace Martins Gomes (22).