Caso Isis: dois anos sem respostas; mãe clama por justiça no Paraná
Caso Isis: dois anos sem respostas; mãe clama por justiça

O desaparecimento de Isis Victoria Mizerski completa dois anos neste sábado (6). A adolescente, de 17 anos e grávida, sumiu em Tibagi, nos Campos Gerais do Paraná, após sair para encontrar o vigilante Marcos Vagner de Souza, apontado como pai do bebê. Desde então, não houve mais notícias sobre seu paradeiro. Embora o corpo nunca tenha sido encontrado, a Polícia Civil concluiu que ela foi assassinada, e a Justiça reconheceu formalmente a morte.

Suspeito preso, mas sem data para julgamento

Marcos Vagner está preso desde 2024, mas ainda não tem data para ir a julgamento. A falta de respostas da Justiça e o mistério sobre o paradeiro do corpo da filha são motivo de angústia para Flávia Mizerski, mãe de Isis. "A saudade, a falta, tudo isso nunca vai passar. [...] É um pensamento de poxa vida, né, quanto tempo! Dois anos e nenhuma novidade diferente, algo diferenciado, não tem. [...] Porque eu tenho um atestado de óbito, mas eu não tenho corpo; então, aí é que entra a esperança", desabafou ela em entrevista à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná.

Marcos Vagner alega inocência desde o desaparecimento. No entanto, uma série de provas reunidas pela polícia levou a equipe de investigação e a família a acreditar o contrário. "Se caso nós tivéssemos já encontrado [o corpo de Isis], se o Marcos já tivesse contado o que ele fez naquele dia talvez essa dor nossa diminuiria. [...] mas nós ficamos sem nada de respostas. E entendemos o lado da Justiça, como ela trabalha, mas assim: está sendo muito lento, né?! Porque faz dois anos, e são dois anos que nós não encontramos a Isis", avalia Rodrigo Mizerski, irmão de Flávia e tio de Isis.

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Crimes e tramitação judicial

O réu responde por homicídio triplamente qualificado (por feminicídio, dissimulação e motivo torpe), ocultação de cadáver e aborto provocado sem o consentimento da gestante, cometidos no âmbito da violência doméstica. Em dezembro de 2024, após ouvir 17 testemunhas e o próprio réu, o juiz João Batista Spanier Neto decidiu que Marcos irá a júri popular. A defesa recorreu, mas o recurso foi recusado na segunda instância do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR). A defesa recorreu novamente, e o caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em junho de 2025, onde permanece sob análise há um ano. Até a publicação desta reportagem, não havia data marcada para o julgamento.

Cronologia do caso

Entenda os principais eventos de 2024, ano do desaparecimento:

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  • 4 de junho: Busca por remédios abortivos. Três testemunhas afirmaram que Marcos tentou comprar medicamentos abortivos. Ele alega que Isis pediu, mas familiares dizem que ela queria ter o bebê.
  • 6 de junho: Dia do desaparecimento. Isis saiu de casa para encontrar Marcos. Às 18h15, ela enviou a localização em tempo real para a mãe, que entendeu como um pedido de socorro. Depois disso, não respondeu mais.
  • 7 e 8 de junho: Localização dos celulares. A quebra de sigilo mostrou que Marcos esteve no mesmo local que Isis nos dois dias seguintes, em uma área de mata em Telêmaco Borba.
  • 10 de junho: Depoimento do suspeito. Marcos confirmou o encontro, mas se contradisse. A polícia coletou imagens que mostram imprecisões.
  • 14 de junho: Mandado de prisão e início das buscas em áreas de mata.
  • 17 de junho: Suspeito se entrega à polícia em Francisco Beltrão, a mais de 400 km de Tibagi.
  • 25 de junho: Suspensão das buscas por falta de indícios. Cinco mil hectares foram percorridos.
  • 26 de junho: Retorno das buscas com nova estratégia, focando margens de rios, após denúncias anônimas.
  • 27 de junho: Advogados da família abrem investigação paralela.
  • 1º de julho: Troca de delegado. O caso passa para Matheus Campos Duarte.
  • 15 de julho: Prisão temporária prorrogada.
  • 26 de julho: Polícia divulga acreditar que Isis está morta.
  • 8 e 9 de agosto: Prisão temporária revogada e, horas depois, prisão preventiva expedida. MP denuncia Marcos por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e aborto.
  • 11 de agosto: Suspeito se torna réu.
  • 21 de outubro: Justiça começa a ouvir testemunhas.
  • 5 de novembro: Força-tarefa retoma buscas com novas denúncias, sem sucesso.
  • 14 de novembro: Réu é ouvido e nega crimes, mas admite tentativa de comprar abortivo.
  • 6 de dezembro: Juiz determina júri popular.

Contexto e provas

De acordo com o delegado Matheus Campos Duarte, Isis e Marcos tiveram relações sexuais entre abril e maio de 2024, e a adolescente engravidou. Ela contou a ele em 3 de junho. As investigações apontam que ele pediu que ela fizesse um teste, que confirmou a gravidez. No dia 6 de junho, os dois saíram para se encontrar, e Isis não foi mais vista.

Três testemunhas afirmaram que Marcos tentou comprar remédios abortivos no dia 4 de junho. Em depoimento, ele disse que quem pediu foi Isis, mas familiares afirmam que ela queria ter o bebê. Conversas no inquérito mostram a prima aconselhando Isis a não tomar nada que Marcos oferecesse, e ela respondeu "óbvio, né".

A defesa de Marcos afirma que ele foi à farmácia apenas para "orientação" e nega que tenha ministrado qualquer medicamento. "Não existe qualquer prova de que o Marcos tenha ministrado, tenha dado à Isis esses medicamentos abortivos naquele dia e naquele momento", disse o advogado Tainan Laskos.

Localização e imprecisões

Imagens de câmeras de segurança mostram o carro de Marcos trafegando na PR-340 a partir das 18h05. Até as 18h06, Isis conversava com a mãe por aplicativo; às 18h15, enviou a localização em tempo real em uma região afastada. A mãe se preocupou após a mensagem ser apagada. "Essa localização nós entendemos como um pedido de socorro", afirma o tio. Depois disso, não houve mais resposta.

Relatórios da polícia apontam "imprecisões" no depoimento de Marcos sobre a noite do desaparecimento, com base nas imagens.

Buscas e esperança

As buscas com drones e cães farejadores não encontraram vestígios. A força-tarefa em novembro de 2024 também não trouxe novidades. A família vive com a angústia da falta de respostas. "A saudade, a falta, tudo isso nunca vai passar", desabafou Flávia. Enquanto isso, o processo segue no STJ, sem previsão de julgamento.