Dezoito meses após entrar em remissão do câncer, a princesa de Gales, Kate Middleton, concluiu o tradicional desafio National Three Peaks, que consiste em escalar as montanhas mais altas da Escócia, Inglaterra e País de Gales em menos de 24 horas. O objetivo foi arrecadar recursos para o hospital onde realizou o tratamento e chamar atenção para a importância do cuidado integral de pessoas com câncer.
Princesa destaca vida além do diagnóstico
Ao comentar a iniciativa no Instagram, Kate afirmou que encarou o desafio como uma oportunidade de “explorar a vida além do diagnóstico” e destacou que o câncer “não afeta apenas o corpo”, mas também a forma como as pessoas pensam, sentem e vivem. Em um vídeo na rede social, a princesa disse ainda que a ação era uma forma de retribuir o cuidado que recebeu e contribuir com o hospital The Royal Marsden. Fundada em 1851, a instituição foi a primeira do mundo a se dedicar exclusivamente ao câncer e foi onde a princesa realizou seu tratamento.
Embora a escalada tenha chamado atenção pela exigência física, especialistas ressaltam que o principal recado não está no feito esportivo, mas na importância de manter uma vida ativa durante e após o tratamento oncológico, sempre com acompanhamento profissional.
Exercício faz parte do tratamento
Segundo a fisioterapeuta Tania Tonezzer, especialista em oncologia, exercício físico e cuidados paliativos e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer (IVC), a prática de exercícios deixou de ser apenas uma recomendação complementar e passou a integrar o cuidado oncológico.
“O gesto de Kate Middleton não é um ponto fora da curva. Ele é, hoje, o padrão-ouro do cuidado oncológico. A incorporação do autocuidado e do exercício físico regular, sempre supervisionado, personalizado e seguro, já é parte oficial do tratamento, não um complemento opcional”, afirma.
De acordo com a especialista, estudos mostram que a atividade física ajuda a reduzir fadiga, ansiedade e sintomas depressivos, além de melhorar a disposição durante tratamentos como quimioterapia e radioterapia.
Uma das pesquisas mais recentes sobre o tema foi apresentada durante a Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) de 2026. No estudo, batizado de Challenge, os pesquisadores acompanharam pacientes com câncer de intestino e observaram aumento da sobrevida entre aqueles que praticavam exercícios, além de redução dos custos para o sistema de saúde.
Durante o tratamento ativo, explica Tania, o foco é ajudar o organismo a lidar melhor com os efeitos colaterais das terapias, respeitando os limites de cada pessoa. “A diferença é de ritmo e de objetivo, não de princípio. O exercício acompanha o paciente do início ao fim, sempre supervisionado e ajustado à fase”, destaca a fisioterapeuta, que vivenciou no próprio corpo os benefícios do movimento durante o tratamento oncológico.
Tania enfrentou o câncer de mama três vezes e não deixou que a doença a paralisasse. “Eu fui bailarina profissional e sempre fui uma mulher em movimento, e foi nisso que me agarrei. Não foi fácil. Teve dias em que o cansaço parecia maior do que eu. Mas, dentro do que era possível, eu não larguei o meu corpo. Eu continuei me movimentando com respeito ao meu limite de cada dia.”
Em 2008, seis meses após concluir a quimioterapia, ela escalou a montanha do sítio arqueológico Tepozteco, no México, e carrega o feito com orgulho. “Quando eu cheguei ao topo, me emocionei. Eu chorei, e não foi pela vista. Foi porque ali eu entendi uma verdade que hoje defendo todos os dias como profissional: a atividade física não é uma recompensa para depois da cura, ela é parte do tratamento”, ensina. “O câncer não precisa ser o fim do movimento. Pode ser, para muitos de nós, o começo de uma relação mais profunda com nosso corpo.”
Retomada deve ser gradual após a remissão
Entrar em remissão não significa voltar imediatamente à rotina anterior ao câncer. Segundo Tania, a atividade física continua sendo recomendada nessa fase, mas a retomada deve acontecer de forma progressiva e respeitando as condições de cada pessoa.
O consenso do American College of Sports Medicine (ACSM), por exemplo, indica cerca de 20 a 30 minutos de atividade aeróbica, três vezes por semana, além de exercícios de força de uma a três vezes por semana, sempre de forma individualizada.
No Brasil, as recomendações do Instituto Nacional de Câncer (Inca), da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS) seguem a mesma linha.
Entre as modalidades, a caminhada costuma ser o melhor ponto de partida. Além de ser a atividade mais estudada, uma pesquisa apresentada em 2026 mostrou que pacientes com câncer colorretal que caminharam regularmente entre seis e 12 meses após o diagnóstico apresentaram maior redução da fadiga e melhora do bem-estar ao longo de dois anos de acompanhamento.
Quando a pausa é necessária
Apesar das evidências científicas, muitas pessoas ainda acreditam que o paciente com câncer deve evitar qualquer esforço físico. Para Tania, essa é uma ideia que precisa ser superada.
“Na prática é o contrário: ficar parado por muito tempo tende a piorar o cansaço, a perda de força e o fôlego, justamente o que se queria evitar”, afirma.
Isso não significa, porém, que toda atividade seja indicada em qualquer situação. Tania explica que, em alguns momentos, a prática de exercícios deve ser pausada temporariamente, como em casos de: anemia importante; febre; infecção ativa; queda acentuada da imunidade; metástases ósseas com risco de fratura; cirurgia recente, sem liberação médica para atividade física.
Nessas situações, a orientação é interromper os exercícios temporariamente e reavaliar o quadro com a equipe de saúde antes de retomar os treinos.



