Águas de Lindóia: da visita de Marie Curie à possível ligação com a NASA
Águas de Lindóia: Marie Curie e possível ligação com a NASA

Com pouco menos de 18 mil habitantes, Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, é um balneário turístico situado entre as montanhas da Serra da Mantiqueira. Conhecida como um dos principais destinos hidrominerais do Brasil, a pequena cidade construiu sua identidade em torno de um patrimônio natural centenário: as águas termais. Se por um lado é um destino consolidado para turismo e bem-estar, por outro preserva capítulos curiosos. A trajetória das fontes locais, que remonta a milhares de anos, já atraiu figuras como a cientista Marie Curie, além de uma possível participação em missões espaciais da NASA.

A visita de Marie Curie

A importância científica das águas do município atingiu projeção internacional na década de 1920. Em 1926, a cientista polonesa-francesa Marie Curie, primeira mulher a receber um Prêmio Nobel e única pessoa a conquistar a premiação em duas áreas científicas distintas, visitou a cidade. Curie estava no Brasil cumprindo compromissos focados em estudos sobre radioatividade e, durante a passagem por Águas de Lindóia, conheceu as fontes locais.

Segundo o historiador Joel Raimundo de Souza, a radioatividade presente nas águas é considerada fraca e auxilia na preservação das características físico-químicas naturais. A visita de Curie ajudou a projetar o nome da cidade no cenário científico. A cidade ainda nutre orgulho por esta visita e ergueu uma estátua da cientista nos jardins do balneário municipal. No início de 2026, foi criada uma lei municipal para oficializar e comemorar o centenário da visita. “Foi uma conquista da cidade que a projetou para o mundo todo”, afirma Souza.

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A curiosa ligação com a NASA

Se a visita de Marie Curie conecta Águas de Lindóia à história da ciência, outro acontecimento alimenta o imaginário de moradores e visitantes há décadas. Um documento preservado na cidade registra a venda de 100 dúzias de garrafas de água para os Estados Unidos em 2 de abril de 1969. Na nota fiscal, a encomenda aparece vinculada a uma missão identificada como "M. Armstrong". Pouco mais de três meses depois, em julho daquele ano, a missão Apollo 11 realizaria o primeiro pouso tripulado na Lua. “A NASA nunca vai oficializar isso, mas temos a nota fiscal. (...) Fica sempre essa dúvida: a água foi para a lua? O que eles fizeram com essas 100 dúzias de água que saiu deste local?”, indaga o historiador.

Uma viagem de até 15 mil anos

As fontes já passaram por vários estudos, um deles aponta uma característica rara: a água que emerge no município iniciou sua jornada há milhares de anos. Conhecida como paleoágua, resulta da infiltração da chuva no solo até grandes profundidades, ultrapassando os 5 mil metros abaixo da superfície. Nesse caminho, atravessa diferentes camadas geológicas e permanece armazenada sob condições de alta pressão e temperatura, até encontrar fissuras nas rochas e iniciar o retorno à superfície. Quando emerge nas quatro fontes do balneário, chega com temperatura entre 28°C e 29°C. Todo esse percurso pode demorar entre 10 mil e 15 mil anos. Segundo especialistas, esse fenômeno torna Águas de Lindóia a única cidade termal do Circuito das Águas Paulista. Cerca de 60 mil litros de água por hora afloram dentro do complexo, apresentando pH levemente alcalino e elevada concentração de silício, elemento amplamente utilizado pela indústria cosmética e associado a propriedades antioxidantes. “Ela vem de uma profundidade muito grande, mais de 5 mil metros, abaixo do Aquífero Guarani. Lá embaixo, a temperatura é de 120 a 130°C, como uma panela de pressão. Naquela pressão, ela encontra uma fenda nas rochas e brota em quatro fontes no balneário”, explica o historiador.

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Pesquisas e tratamentos

O uso terapêutico das águas faz parte da história da cidade há mais de um século, especialmente em tratamentos relacionados à saúde renal. Atualmente, uma pesquisa em parceria com o Instituto de Pesquisas Nucleares da USP acompanha pacientes com doença renal crônica. Resultados preliminares apontam melhora em parte dos participantes que passaram a consumir regularmente a água termal. “Nós já temos resultados parciais fantásticos, onde 90% dos pacientes que ingeriram a água tiveram melhora. A gente atrasa bastante a doença e diminui em muito o risco de o paciente ter de ir para hemodiálise”, diz a enfermeira Denize Julia Taveira. Os pesquisadores ressaltam, porém, que os estudos continuam em andamento.