Banda Nomádica: rock como manifesto LGBT+ no interior de SP
Banda Nomádica transforma rock em manifesto LGBT+ em SP

Riffs marcantes, vocais intensos, deboche e muito orgulho de ser quem é. Com uma formação que reúne duas travestis, uma mulher lésbica e dois integrantes heterossexuais, a banda Nomádica, de São Carlos (SP), faz do rock um espaço de representatividade, protesto e celebração da diversidade. No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, comemorado em 28 de junho, a trajetória da banda é liderada pela travesti, guitarrista, compositora e vocalista Renê Echeverria, que transforma experiências e vivências da comunidade em músicas autorais.

Rock travesti e formação única

Em 2025, a banda passou a atuar como quinteto com a chegada da segunda guitarrista e consolidou sua proposta de fazer rock autoral em português voltado para narrativas LGBT+, especialmente vivências transvestigêneres – experiências de pessoas travestis, transexuais e de outras identidades trans. Além de Renê, integram a banda a travesti Luiza Gimenez (guitarrista, tecladista e compositora), Ana Paula Neves (baixista e backing vocal), Hellen Marques (percussionista) e o baterista Felipe Parra.

Segundo Renê, a Nomádica se destaca por reunir uma formação pouco comum na cena do rock de São Carlos. "Somos a única banda de rock da cidade, até então, que tem travestis em sua formação e uma das únicas bandas femininas nesse mesmo cenário. Ainda é difícil a busca por espaços de circulação de shows, mas é evidente que o público aos poucos está se diversificando", avaliou.

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Performance e deboche como resistência

No palco, a proposta vai além da música. Os shows são performáticos, dançantes e carregados de ironia. As letras abordam identidade, desejo, resistência e transformam experiências de violência em afirmação da existência. A sonoridade mistura MPB, rock alternativo e punk rock. "Quando cantamos, personificamos a experiência de travestis que afirmam a vida com convicção, nos colocando em lugar de protagonismo, e não de assujeitamento, como muito frequentemente são representadas essas vivências", contou Renê.

A guitarrista Luiza explica que as composições surgem desse processo de ressignificação. "A partir das violências cotidianas vividas como catarse, buscamos contar a história de afirmação da dissidência como potência. Isso pode ser visto em trechos de canções como 'Escondida Jamais! Não volto pra esse armário nunca mais!'" Em 2025, a banda lançou o single "Peçonhenta", marcando a transição da MPB para o rock alternativo.

LGBTQIA+ sonoro e ocupação de espaços

Para a Nomádica, também é papel da banda lembrar que pessoas LGBTQIA+ sempre estiveram presentes na construção da música, embora muitas vezes tenham sido apagadas da história. Luiza destacou a importância de revisitar artistas que abriram caminho para novas gerações, como Cássia Eller, Cazuza, Ney Matogrosso, Liniker, Linn da Quebrada e Ventura Profana.

Apesar dos avanços, a banda reforçou que a cena do rock ainda é predominantemente masculina e heteronormativa. Mas elas também observam mudanças no underground são-carlense, com mais presença de mulheres e diversidade. "Propomos transmutar essa cena e dar visibilidade a novas vozes. Nos surpreendemos positivamente com algumas pessoas, assim como já teve repulsa e deboche de outras", disse Renê.

Para elas, o rock precisa voltar a ocupar seu papel histórico de contestação e revolução. "O rock tem sido cooptado por ideais reacionários e hegemônicos mais intensamente nos últimos tempos, e é fundamental que haja resistência e afirmação da diferença para que estas cenas não se esvaziem de seus valores fundamentais de resistência e revolução", disse Luiza.

Futuro e novos lançamentos

Para a banda, o maior retorno é ver jovens se identificando com as músicas e com a própria existência do grupo. Com passagens em festivais da região, como o Vespeiro Festival e o Soma Rock, ambos em 2025, a banda prepara o primeiro EP da carreira, com sete músicas autorais, previsto para ser lançado ainda neste ano. A banda também prepara o lançamento do videoclipe de "Peçonhenta", produzido em parceria com o curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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