Ana Loyse Mendes, de 22 anos, denunciou que sua filha Ana Laura morreu cinco minutos após o parto, depois que uma médica do Hospital Regional Justino Luz, em Picos, teria insistido no parto normal e negado a realização de cesárea. O caso ocorreu em janeiro deste ano. "Ana Laura foi muito esperada, era meu sonho ser mãe", disse a jovem à TV Clube.
Trabalho de parto de sete horas e ausência da médica
Segundo a defesa da mãe, o trabalho de parto durou cerca de sete horas. Ana Loyse deu entrada no hospital às 17h do dia 3 de janeiro, com indicação inicial para parto normal. Após a troca de turno, uma médica residente assumiu o atendimento. A advogada Thaysa Soares relata que o processo foi marcado por dores intensas e pela ausência da profissional.
De acordo com o Ministério Público do Piauí (MPPI), uma enfermeira e uma fisioterapeuta identificaram que as contrações estavam espaçadas e recomendaram uma cesárea. "A enfermeira viu que não estava evoluindo, eu estava passando mal, dizendo que não aguentava mais e queria cesariana. Às 23h55, eu consegui expulsar a Ana Laura e ela (a médica) não estava lá, só a fisioterapeuta e a enfermeira", contou a mãe.
Bebê nasceu sem chorar e com sinais de esmagamento
A filha nasceu às 0h15 do dia 4 de janeiro, conforme a certidão de nascimento, sem chorar e com a cabeça arroxeada, apresentando sinais de esmagamento. Cinco minutos depois, às 0h20, segundo a certidão de óbito, a morte por parada cardiorrespiratória e insuficiência respiratória foi declarada pela equipe médica.
Denúncia e arquivamento do boletim de ocorrência
No dia 5 de janeiro, a defesa da família apresentou denúncia à ouvidoria do hospital, à Secretaria de Saúde do Piauí (Sesapi) e ao Ministério Público. O hospital informou que as investigações de um comitê multidisciplinar concluíram que a equipe médica "esteve em conformidade com os princípios técnicos e as diretrizes de boas práticas assistenciais".
Em fevereiro, a família registrou boletim de ocorrência contra a médica na 1ª Delegacia de Picos. Três dias depois, o BO foi arquivado por um delegado que substituía o titular. "Para nossa surpresa, o delegado que estava assumindo as férias desse delegado era irmão da médica. Quando a gente foi procurar após o período de férias, o delegado responsável, o titular, nos informou que o anterior, no caso, o irmão da médica, havia arquivado o boletim de ocorrência", disse a advogada Thaysa Soares.
O delegado Rodrigo Morais, que estava de férias na época, afirmou que o documento foi registrado como "fato atípico". "Não tenho procuração para falar pela pessoa, mas digo pois faço igual que boletins de ocorrência, quando registrados como fato atípico, eu não abro e não leio o conteúdo. Fato atípico é elencado como não criminoso. Não tenho como fazer juízo de valor, pois foi registrado sem minha supervisão", afirmou. Ele acrescentou que um inquérito policial foi instaurado após requisição do Ministério Público, mas preferiu que o caso fosse encaminhado a outra autoridade policial.
Ministério Público e CRM investigam
O MPPI informou que há um procedimento em andamento para apurar eventual falha na prestação do serviço de obstetrícia do hospital. O órgão também solicitou ao Conselho Regional de Medicina (CRM) a abertura de sindicância para investigar a conduta dos profissionais envolvidos. O CRM confirmou a abertura de sindicância, mas não pode se pronunciar por sigilo.
Sobre a não instauração inicial do inquérito policial, o MPPI informou que a Promotoria de Justiça responsável pelo controle externo da atividade policial deverá adotar as providências cabíveis. "Só quero justiça seja feita corretamente e descubra toda verdade", finalizou Ana Loyse Mendes.
Nota do hospital
O Hospital Regional Justino Luz esclareceu que, ao tomar conhecimento dos fatos, instaurou imediatamente um comitê interno multidisciplinar para apuração detalhada. As investigações concluíram que a conduta adotada pela equipe esteve em conformidade com os princípios técnicos e as diretrizes de boas práticas assistenciais vigentes. O desfecho foi caracterizado como um evento adverso de natureza clínica, sem correlação direta com negligência, imprudência ou imperícia profissional. A direção lamentou profundamente o ocorrido e se solidarizou com a família.



