Primeiro bebê gerado por homem trans nasce na rede pública da Paraíba
Primeiro bebê de homem trans na rede pública da PB

Iara, a primeira bebê gerada por um homem trans a nascer no sistema público de saúde da Paraíba, veio ao mundo em junho de 2026, no Hospital da Mulher, em João Pessoa. A criança é filha de Gisele Castro, mulher trans, e Daniel Valentim, homem trans que gestou Iara. A gravidez foi planejada pelo casal, que mora em Esperança, no Agreste paraibano.

Uma história de amor e planejamento

Gisele, médica veterinária e professora universitária, e Daniel, estudante de Agronomia, se conheceram pela internet há quatro anos. O desejo de ter um filho é antigo, e em 2023 veio a primeira tentativa. “A gente quer falar para a sociedade que família tem a ver com amor, respeito e união. Então, se você tem aí esses três ingredientes, você tem uma família”, afirmou Gisele ao g1.

Para que a gravidez fosse possível, o casal precisou interromper temporariamente a terapia hormonal. Gisele, que toma hormônios feminilizantes, e Daniel, que toma hormônios masculinizantes, enfrentaram o retorno de características físicas indesejadas. “É muito ruim, porque quando a gente quer engravidar, a gente tem que parar com esses hormônios. E aí as características masculinas e femininas voltam nos nossos corpos, o que traz algo chamado disforia, que é um desconforto”, explicou Gisele.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Desafios da gestação e busca por acolhimento

O pré-natal começou em Campina Grande, mas a gestação foi classificada como de alto risco no primeiro mês, após Daniel ser diagnosticado com trombose. O casal também recebia assistência do ambulatório para pessoas transexuais vinculado ao Hospital de Trauma de Campina Grande. No entanto, Daniel sentia desconforto e medo do preconceito por ser o primeiro homem trans gestante na unidade. A insegurança aumentou ao saber que a obstetra responsável não realizaria o parto, que ficaria a cargo do médico plantonista.

“Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou Daniel.

Acolhimento no Hospital da Mulher

O casal descobriu que o Hospital da Mulher, inaugurado há pouco mais de um ano, realiza cirurgias de mastectomia em homens trans encaminhados pelo Espaço LGBT Clementino Fraga, indicando que a equipe já era treinada para acolher esse público. Com ajuda do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, conseguiram vaga e transferiram o pré-natal no oitavo mês. O médico responsável avaliou os exames e confirmou que a unidade estava apta a recebê-los.

Segundo Gisele, a experiência foi acolhedora e livre de preconceitos. “Nossa família ficou muito feliz. A gente teve um acolhimento de grande parte da família. A minha sogra, a mãe de Daniel, foi a primeira pessoa a visitar; a minha mãe também acolheu muito bem”, relatou.

Família além da heteronormatividade

Para Gisele, contar a história da família ajuda a mostrar que casais LGBTQIAP+ podem oferecer um ambiente saudável para criar um filho. “Às vezes, você tem um casal heteronormativo, mas que tem violência, traição, várias coisas ruins. A gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis para ter uma família”, afirmou.

O casal destaca que a chegada de Iara é a prova de uma união de sucesso, construída com base no afeto e no respeito mútuo. A pequena Iara nasceu trazendo felicidade para toda a família, que agora celebra a nova formação.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar