Uma rede de 28 contas no Facebook, localizadas no Sri Lanka e somando 1 milhão de seguidores, está usando inteligência artificial (IA) para produzir conteúdo político brasileiro e lucrar com o programa de monetização da Meta. A investigação do Estadão Verifica revelou que os perfis publicam majoritariamente conteúdo favorável ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas também há posts exaltando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Motivação financeira por trás das páginas
O criador de uma das páginas, morador de Colombo, no Sri Lanka, confirmou à reportagem que publica para gerar renda por meio do programa de criação de conteúdo da Meta. Ele afirmou que “o pagamento que o Facebook dá para conteúdos do nosso país é menor”, justificando o foco no Brasil. A Meta paga criadores com base em visualizações e engajamento, tendo distribuído US$ 3 bilhões globalmente em 2025. Visualizações de países com moedas mais fortes, como o Brasil, geram maior retorno.
Uso de IA e erros grosseiros
As ferramentas de IA permitem criar fotos e vídeos em qualquer idioma sem conhecimento profundo do país-alvo. Um exemplo é um vídeo de 12 de maio mostrando a família Bolsonaro em um carro, com Jair dirigindo e Michelle ao lado. No banco de trás, três filhos aparecem, incluindo dois “Eduardo” Bolsonaro lado a lado – um erro claro de IA. Apesar disso, o vídeo acumulou 7,9 mil curtidas e 1,7 mil comentários em menos de 24 horas.
Conteúdos falsos e descontextualizados
Outro vídeo mostra o jogador Neymar Jr. dizendo que “Lula é a pior pessoa do mundo”, declaração nunca feita por ele. Há também um vídeo em que Bolsonaro supostamente defende “5 dias de trabalho por 2 de folga”, sem registro real. Uma conta exibe Lula discursando sob chuva com capuz vermelho e símbolo comunista, mas a voz não é dele e o mindinho esquerdo aparece – dedo que Lula perdeu na juventude. As postagens frequentemente usam “call to action”, como pedir reações de “amei” ou “curti” para aumentar o engajamento.
Indícios de atuação coordenada
Das 28 páginas, 21 foram criadas entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026. Algumas mudaram de nome nesse período – por exemplo, “Living in Brazil” antes se chamava “අලෙවිය” (cingalês para “marketing” ou “vendas”). Páginas como “Legend of Brazil” e “President 2026” foram criadas no mesmo dia (11 de novembro de 2025) e compartilham descrição idêntica: “Quem será o presidente em 2026?”. Em 10 de dezembro de 2025, fizeram as mesmas postagens nos mesmos horários: 11h, 13h, 15h, 17h e 19h.
Localização falsa e transparência
As páginas usam dados de localização falsos, como “Catedral da Sé” em São Paulo, para parecerem autênticas. No entanto, as informações de transparência da Meta confirmam que os administradores estão no Sri Lanka. Evidências adicionais incluem postagens em cingalês e seguidores de atrizes e jogadores de críquete locais.
Especialistas apontam distorção no programa da Meta
O doutor em Ciência Política Rodrigo de Almeida Leite, professor da UFJF, destaca que a resolução do TSE de 2024 proíbe o uso de IA para difundir informações falsas que prejudiquem o processo eleitoral. “A normativa impõe um dever quase automático para a plataforma de cessar a monetização de contas que produzem materiais ilícitos em termos eleitorais”, afirma. A doutora em Comunicação Taís Seibt, pesquisadora em desinformação, observa que “o conteúdo sintético gera muito engajamento, mesmo com falhas perceptíveis”. Já o professor David Nemer, da Universidade da Virgínia, acrescenta que “as postagens vendem ideias que não existem, manipulando a emoção para capitalizar”. Após contato do Verifica, a Meta tornou a maioria das páginas indisponíveis – em 3 de julho, apenas duas continuavam no ar.



