Estudos recentes indicam que o uso inadequado da inteligência artificial (IA) pode comprometer habilidades cognitivas como pensamento crítico, neuroplasticidade e memória de trabalho. A constatação surge em meio ao crescente debate sobre os impactos da IA no desenvolvimento humano.
Pesquisa da Swiss Business School aponta correlação
Michael Gerlich, pesquisador da Swiss Business School, na Suíça, encontrou correlação entre o uso mais intenso da IA e menores níveis de pensamento crítico. A causa estaria ligada ao chamado 'descarregamento cognitivo', quando transferimos para a tecnologia tarefas mentais que antes realizaríamos. Gerlich não afirma que a IA reduz o pensamento crítico automaticamente, mas sim que pode diminuir as oportunidades de exercê-lo. Além disso, concluiu que os mais velhos e os mais escolarizados têm mais resistência a esse efeito, sugerindo que a fricção mental acumulada ao longo da carreira funciona como proteção contra o uso inadequado da tecnologia.
Estudo da Carnegie Mellon e Microsoft Research
Em outro estudo, Hao-Ping Lee, da Universidade Carnegie Mellon (EUA), e pesquisadores da Microsoft Research Cambridge (Reino Unido) concluíram que, quanto maior a confiança do trabalhador na capacidade da IA de executar uma tarefa, menor tende a ser seu pensamento crítico na avaliação dos resultados, mesmo sabendo que ela comete muitos erros. Por outro lado, quanto maior a confiança da pessoa na própria capacidade, maior o nível de análise crítica exercido sobre respostas produzidas pela máquina. O estudo mostra que o esforço não desaparece, apenas migra da busca de informação para a curadoria do que vem pronto, sustentando a ideia de que a 'muleta' começa a substituir o 'músculo'.
Riscos do uso inadequado da IA
O uso inadequado da IA, definido como a tecnologia assumir de maneira sistemática as partes mais difíceis das atividades, pode reduzir os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais. Especialistas não encontram soluções porque decoraram respostas, e sim porque enfrentaram centenas de situações difíceis ao longo da carreira. Cada problema resolvido ampliou seu repertório mental. Para eles, o desconforto cognitivo faz parte do aprendizado, portanto não buscam atalhos.
Impacto cultural e social
Historicamente, as grandes inovações tecnológicas reduziram o esforço humano, mas preservaram nosso papel de analisar, decidir e criar. A IA é a primeira tecnologia capaz de assumir parte do processo de raciocínio, podendo alterar a forma como aprendemos e exercitamos o pensamento crítico. O autor alerta que, em uma sociedade que valoriza a rapidez na execução de tarefas, a 'muleta' da IA pode se tornar padrão e obrigatório, levando a declínios cognitivos consideráveis.
Bom uso versus mau uso
Quando a IA automatiza tarefas repetitivas, burocráticas ou operacionais, libera tempo para atividades nobres como criar, investigar, negociar, inovar e decidir. O problema surge quando delegamos à máquina aquilo que mais contribuiria para nossa evolução intelectual. Redes neurais frequentemente ativadas tendem a se fortalecer; as pouco usadas ficam menos eficientes. Se a IA assume sistematicamente o que nos desafia, pode reduzir os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais.
Necessidade de reflexão
O autor ressalta que essa não é uma discussão tecnológica, mas cultural. Fomos educados a valorizar tecnologias que eliminavam esforço, mas com a IA estamos eliminando um tipo de esforço que representa custo e promove aprendizado. Se o cérebro evolui ao enfrentar desafios, reduzi-los a todo momento pode produzir profissionais eficientes, mas menos preparados para lidar com ambiguidades e construir pensamentos originais. Uma sociedade que se acostuma a aceitar respostas sem examiná-las corre o risco de enfraquecer sua capacidade de sustentar inovação, ciência, jornalismo, educação e democracia. Todos precisam resgatar o hábito de questionar, comparar evidências e sustentar argumentos, e a IA pode ajudar nisso — esse é o bom uso.



