Pesquisadora registra raro nascimento de jacaré-açu no Parque do Araguaia
Raro nascimento de jacaré-açu é registrado no Araguaia

A bióloga Barthira Rezende de Oliveira registrou a eclosão de ovos de jacaré-açu (Melanosuchus niger) no Parque Nacional do Araguaia, flagrando o momento em que os filhotes rompem a casca e emergem do ninho. O registro é considerado raro, pois exige monitoramento constante desde o início da temporada de postura. "Esse tipo de registro em ambiente natural é difícil porque a janela de eclosão é curta e imprevisível", explica a pesquisadora. Fatores como temperatura e umidade do ninho podem antecipar ou atrasar o momento exato da eclosão, mesmo existindo um tempo médio de incubação.

Estudo de longa duração sobre a ecologia reprodutiva

O flagrante é resultado de um estudo de longa duração sobre a ecologia reprodutiva da espécie, conduzido pela herpetóloga, mestra em Biodiversidade, Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e especialista em crocodilianos. O ninho que aparece no registro foi acompanhado desde a postura dos ovos. Ao longo da temporada reprodutiva, a pesquisadora realiza buscas ativas para localizar os ninhos de jacaré-açu na região e, depois de encontrá-los, faz visitas periódicas para monitorar o desenvolvimento dos ovos, possíveis ataques de predadores e o sucesso da eclosão. Armadilhas fotográficas instaladas próximas aos ninhos também ajudam a documentar o comportamento dos animais.

Estimativa precisa do nascimento

Com base no tempo médio de incubação observado na região, 85,6 dias entre a postura e a eclosão, Barthira conseguiu estimar a data provável do nascimento e chegar ao ninho no momento certo. Segundo ela, esse intervalo pode variar conforme a região onde a espécie ocorre, principalmente em função de condições ambientais como temperatura, umidade e características do local de nidificação.

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Filhotes nascem prontos para nadar, mas vulneráveis

Assim que rompem a casca do ovo com o chamado "dente de ovo", os filhotes de jacaré-açu já nascem aptos a nadar e a capturar pequenas presas, como insetos e outros invertebrados, comportamentos inatos que garantem certa independência alimentar desde os primeiros dias. No entanto, o tamanho reduzido os torna vulneráveis. Aves, peixes, serpentes e até outros jacarés podem atacar os recém-nascidos, que buscam abrigo na vegetação e em tocas nas margens dos rios e lagoas. Nessa fase, o cuidado da mãe se torna essencial: a presença da fêmea reduz o risco de predação e aumenta as chances de sobrevivência de toda a ninhada. "Embora sejam fisiologicamente preparados para viver na água, os filhotes ainda dependem da proteção materna durante os primeiros meses de vida", afirma a pesquisadora. O filhote de jacaré-açu nasce com um tamanho médio de 30 cm de comprimento total.

Comunicação por sons entre mãe e filhotes

Logo após nascer, os filhotes começam a vocalizar, um comportamento que tem função direta na sobrevivência da ninhada. De acordo com a pesquisadora, os crocodilianos jovens emitem diferentes tipos de chamado: os "chamados de eclosão", que pedem a presença da mãe no momento do nascimento e ajudam a sincronizar a saída dos irmãos do ninho; os "chamados de contato", que mantêm a ninhada unida; os "chamados de angústia", que acionam a proteção parental; e os "chamados de ameaça", possivelmente ligados à defesa. A vocalização de eclosão tem um papel prático: estimula a fêmea a abrir o ninho com cuidado, facilitando a saída dos filhotes, já que, com o tempo, o ninho fica compactado e tomado por raízes, dificultando a saída sem ajuda. Depois de nascidos, os filhotes seguem se comunicando, e qualquer sinal de ameaça ou afastamento da ninhada pode fazer a mãe, e até machos alfas, responderem rapidamente.

Maior predador de água doce das Américas

Adulto, o jacaré-açu se torna o maior crocodiliano das Américas e um dos principais predadores de topo dos ecossistemas de água doce da região Neotropical. Os machos podem ultrapassar cinco metros de comprimento e pesar mais de 400 quilos. Com o crescimento, a dieta muda completamente: os filhotes comem insetos, crustáceos e pequenos vertebrados, enquanto os adultos passam a se alimentar de grandes peixes, quelônios, aves, serpentes e mamíferos. Há até registros de canibalismo entre indivíduos adultos, comportamento comum entre grandes predadores oportunistas.

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