O professor da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, Guilherme Casarões, afirmou que os ataques dos Estados Unidos ao sistema Pix ajudam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tornar a defesa da soberania brasileira algo concreto. Ele também avaliou que as oscilações de Donald Trump na relação com o Brasil refletem disputas internas de poder no governo americano.
O que explica as ações dos EUA após um encontro aparentemente bem-sucedido entre Lula e Trump?
Essas agendas já haviam começado no ano passado. O governo Trump atua de forma descoordenada, com diversos núcleos de interesse, cada um tocando suas pautas setoriais. O secretário de Estado Marco Rubio, em particular, opera uma política específica para a América Latina, na qual o Brasil é visto como rival. Ele foi o que menos se engajou com Lula. Tendemos a olhar para tudo que Trump faz como parte de uma estratégia, mas parte disso é calculado, enquanto outro tanto segue o ritmo das disputas internas do governo.
Por que chama atenção Trump postar foto com Flávio no dia do anúncio das tarifas?
Esse é o ponto mais estranho. Pode ser que Trump tenha calculado que poderia impulsionar Flávio Bolsonaro. Na reunião com Flávio, no entanto, ele elogiou Lula. Não se sabe o quanto Trump compreende o impacto de suas ações na dinâmica eleitoral brasileira.
O novo tarifaço e os ataques ao Pix podem ajudar Lula novamente, como ocorreu no ano passado?
Acredito que sim. No momento da designação do PCC e do CV como terroristas, avaliei que Flávio havia conseguido assumir o controle da narrativa: deu coletiva em Washington, disse que pediu abertamente a Trump, e a denominação saiu pouco depois. Seria muito difícil o governo Lula criticar a decisão sem parecer que estava defendendo bandidos. Mas vieram as tarifas na sequência, e o vídeo atrapalhado de Eduardo Bolsonaro, sugerindo trocar o Pix por um modelo americano. Lula conseguiu partir para a ofensiva quando se encontrou com Trump. Flávio vai aos EUA, vira a página e coloca o governo na defensiva, mas agora, com as tarifas, é o bolsonarismo que se defende, de forma histérica.
Lula ganhou o Pix de bandeja como arma eleitoral?
Diria que sim, porque a questão do Pix fala de soberania, por ser um mecanismo de pagamentos desenvolvido pelo Brasil, que incluiu milhões de pessoas no sistema bancário. Há uma questão de orgulho nacional, que o bolsonarismo tentou capitalizar. Duas semanas atrás, eu pensava que seria difícil Lula defender a soberania no abstrato. O Pix materializa essa defesa em algo que todos usam, saindo do abstrato.
A denominação de CV e PCC ainda pode ser uma arma forte para o bolsonarismo?
Como segurança pública é central no debate eleitoral, tenho certeza que renderá. Trump pode tomar outras medidas, e o perigo é abrir precedente para que os EUA realizem ações econômicas, jurídicas ou militares contra o Brasil para impulsionar a candidatura de Flávio. O que precisa ser calculado é se uma interferência mais ostensiva ajudará Flávio ou beneficiará Lula.
Quais riscos de intervenção o senhor enxerga?
Embora o risco seja pequeno, porque CV e PCC não têm conexões diretas com os EUA, mas sim intermediários, há possibilidade de congelamento de ativos financeiros de empresas suspeitas de relação com as facções. O grande problema é abrir a porta para interferência econômica que transborde para todo o sistema, desde fintechs a bancos e o próprio Pix.
Uma máxima atribuída a Ulysses Guimarães diz que política externa só dá voto no Burundi. Isso ficou ultrapassado?
Já houve a percepção de que era importante internacionalizar a campanha, mas isso é diferente de política externa. Trazer temas de política externa é recente. Quem fez isso foi Bolsonaro em 2018, com promessas sobre Venezuela, alinhamento com Trump e a mudança da embaixada de Israel para Jerusalém. Agora, a política externa volta a importar porque os EUA se debruçam sobre a América Latina de forma nova. Não é a Doutrina Monroe do século XIX; é muito mais. A extensão dos instrumentos dos EUA hoje é maior: podem retirar empresas do setor financeiro, penalizar autoridades com restrições de visto e acesso ao sistema financeiro, e designar grupos como terroristas, abrindo portas para intervenção. Trump usou praticamente tudo contra o Brasil.



