A Polícia Civil de Piracicaba (SP) deflagrou nesta sexta-feira (26) a Operação Duplicata Fantasma, que investiga um esquema de fraudes que movimentou mais de R$ 225 milhões por meio de empresas de fachada e duplicatas fictícias. Durante a ação, três veículos de alto valor foram apreendidos e sete pessoas conduzidas para prestar depoimento, mas ninguém foi preso.
Esquema com duplicatas falsas
Segundo as investigações, o grupo utilizava uma empresa de fachada do ramo alimentício para emitir notas fiscais e duplicatas falsas em nome de empresas fictícias. A duplicata é um título de crédito que formaliza uma venda a prazo, funcionando como promessa de pagamento e permitindo que a empresa credora antecipe o recebimento no mercado financeiro. Esses títulos eram vendidos a fundos de investimento e securitizadoras, que transformam dívidas em títulos negociáveis.
“Com esses títulos em mão, eles levavam às securitizadoras, e elas compravam esses títulos. Hipoteticamente, se o título valesse R$ 10 mil, as securitizadoras pagavam 80% do valor. A empresa recebia R$ 8 mil e tinha esses R$ 2 mil que seriam os juros, a mora, o lucro dessas securitizadoras”, explicou o delegado Ivan Constâncio.
Confiança inicial e colapso
De acordo com o delegado, no início o esquema funcionou de forma correta, gerando confiança no mercado. Com o aumento dos aportes, os negócios tornaram-se insustentáveis. A empresa deixou de honrar os pagamentos e “desapareceu”, causando prejuízos milionários. “No começo, esse esquema funcionou de uma forma correta, o que gerou uma garantia à empresa junto ao mercado. Então, o aporte das securitizadoras foi aumentando mês a mês. A gente tem ideia de três securitizadoras que aportaram milhões de reais nessa empresa, acreditando que aquelas duplicatas seriam honradas futuramente. Como o valor se transformou em um grande montante, essa empresa, literalmente, desapareceu, o local físico foi fechado, os funcionários foram todos mandados embora”, afirmou Constâncio.
Movimentação dos valores
Inicialmente, o grupo usou o dinheiro das securitizadoras para abrir outras empresas, que depois foram fechadas. Os valores foram repassados a pessoas físicas e movimentados entre várias contas, sendo reinseridos na economia por meio da compra de imóveis com valores superfaturados, aplicações em planos de previdência privada e aquisição de veículos de luxo pagos em dinheiro.
A operação
Ao todo, 28 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em oito cidades de São Paulo e Minas Gerais: Sumaré, Americana, Santa Bárbara d'Oeste, Nova Odessa, Hortolândia, Limeira (SP), Santa Rita de Caldas e Andradas (MG). As investigações começaram após denúncias de empresas do setor de crédito e foram aprofundadas com relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e análises financeiras.
A Polícia Civil identificou dez suspeitos, dos quais sete prestaram depoimento. Três não foram localizados, incluindo o apontado como mentor. Os suspeitos devem responder por estelionato qualificado, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
Apreensões
Foram apreendidos documentos, contratos, anotações contábeis, equipamentos eletrônicos, dinheiro em espécie e três veículos de alto valor. Com autorização judicial, iniciou-se a extração de dados de celulares e computadores. A medida busca descapitalizar a organização criminosa e garantir eventual ressarcimento às vítimas.



