A Copa de 2026 começou, e os personagens do escândalo do momento também estão assistindo aos jogos. É verdade que alguns podem estar temporariamente privados de certos confortos, como whisky, charutos e camarotes, mas a experiência brasileira sugere que esse desconforto costuma durar pouco. A Copa de 2030 está mais próxima do que parece.
Corrupção como DNA nacional?
Existe uma crença difundida de que a corrupção faz parte do DNA da sociedade brasileira. A expressão reaparece sempre que um novo escândalo ocupa as manchetes e oferece uma explicação simples para um problema mais complexo, como se a repetição desses episódios fosse consequência inevitável do comportamento nacional.
Se a corrupção fosse apenas uma característica cultural, seria difícil compreender por que alguns países conseguiram reduzir esse problema. O que costuma diferenciá-los não é a existência de cidadãos melhores, mas de instituições capazes de investigar, julgar e punir de forma previsível, criando um ambiente em que a corrupção deixa de ser uma aposta atraente.
Escândalos recorrentes e falta de consequências
Escândalos de corrupção nunca faltaram no Brasil; o que falta são consequências capazes de transformar a corrupção em um mau negócio. O Mensalão foi apresentado como um marco no combate à corrupção, mas poucos anos depois o Petrolão revelou um esquema ainda maior. Mais recentemente vieram denúncias sobre fraudes no INSS e investigações envolvendo o Banco Master, reforçando a impressão de que os nomes mudam, mas cada caso acaba se tornando apenas o capítulo anterior do seguinte.
Nenhum hábito sobrevive por muito tempo quando produz consequências severas. Da mesma forma, quando as consequências são pequenas, demoradas ou reversíveis, a repetição torna-se uma escolha racional e a corrupção deixa de ser exceção para funcionar como método.
Responsabilidade das instituições
Antes de atribuir essa realidade ao cidadão que acompanha a Seleção com mais entusiasmo do que acompanha os escândalos políticos, vale lembrar um princípio básico da República: cabe às instituições e aos seus líderes criar as leis, fiscalizar seu cumprimento e aplicar as punições. Quando a corrupção se repete por décadas, a responsabilidade não pode ser transferida apenas para quem assiste aos jogos.
Enquanto isso, a Copa segue. Alguns dos personagens do escândalo atual podem estar vivendo dias desconfortáveis, mas quatro anos passam rápido. Se a história servir de referência, certamente muitos estarão assistindo à Copa de 2030 em condições bem melhores do que as atuais, enquanto nós estaremos acompanhando o próximo escândalo e ouvindo, mais uma vez, promessas de que agora será diferente.



