A nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos foi rapidamente absorvida pela campanha eleitoral brasileira. Para o governo Lula, trata-se de mais uma demonstração da arrogância americana e uma oportunidade para vestir o figurino de campeão da soberania. Para o bolsonarismo, a responsabilidade recai sobre a condução da política externa e econômica do governo. Mas, enquanto a disputa verbal domina palanques e redes sociais, empresários, exportadores e diplomatas lidam com uma realidade menos dramática e mais complexa. A proposta americana ainda passará por consultas e audiências. Produtos relevantes foram excluídos das novas tarifas. E, sobretudo, a negociação continua aberta.
Contexto internacional das tarifas
A ofensiva não se limita ao Brasil. Depois de perder boa parte de seu arsenal tarifário nos tribunais, o governo Trump passou a recorrer a outros instrumentos, entre eles as investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos. Dezenas de países foram alcançados por iniciativas semelhantes. Há, em Washington, interesses comerciais, estratégicos e eleitorais operando simultaneamente. Há também diferentes correntes dentro do próprio governo. A disputa com a China, a busca por alternativas de minerais críticos, preocupações com cadeias produtivas estratégicas e temas ligados à segurança regional convivem com agendas mais diretamente associadas à política doméstica. Reduzir tudo a uma tentativa de afetar este ou aquele candidato brasileiro, além de irreal, produz mais calor do que luz.
Impactos reais na economia brasileira
As tarifas impactam setores importantes e exigem reação. Mas a impressão de que a economia brasileira está diante de um choque devastador não encontra respaldo nos fatos. Uma parcela das exportações para os EUA seria atingida. Outra parcela relevante – como café, suco de laranja, aeronaves e minerais críticos – foi excluída. Essas exceções revelam que a política comercial de Trump é agressiva, mas não aleatória. Os EUA procuram ampliar sua capacidade de pressão sem prejudicar excessivamente empresas, consumidores e cadeias produtivas relevantes para seus interesses. Em negociações comerciais, os anexos costumam dizer mais que as manchetes.
A necessidade de diálogo pragmático
É nesse espaço que o Brasil precisa atuar. Países que obtiveram melhores resultados diante das investidas tarifárias foram os que mantiveram canais de diálogo abertos, concentraram esforços em objetivos concretos e evitaram transformar disputas comerciais em cruzadas ideológicas. Nem sempre conseguiram eliminar tarifas. Mas frequentemente conseguiram reduzi-las, limitar danos ou ampliar exceções. Isso exige um discernimento nem sempre fácil em ano eleitoral. A campanha seguirá seu curso. Lula continuará agitando a bandeira da soberania. Seus adversários continuarão associando os custos da crise ao governo. Nada disso é surpreendente. Política é política. Comércio é comércio. Confundir as duas esferas costuma produzir maus resultados.
Interesses permanentes do Brasil
O Brasil tem interesses permanentes a defender. Alguns são inegociáveis, como a autonomia de suas instituições. Outros exigem negociação paciente e pragmática. É o caso do acesso a mercados, da proteção de exportações relevantes, da atração de investimentos e da ampliação da cooperação econômica com parceiros estratégicos. O Brasil continua sendo uma das economias mais fechadas do mundo. Exporta pouco para o tamanho de seu mercado e participa menos do comércio internacional do que poderia. A crise atual não foi criada por essa característica, mas ajuda a lembrar seus custos. Quanto maior a integração comercial de um país, mais opções ele tem diante de choques externos. Quanto mais diversificados forem seus mercados, menor será sua vulnerabilidade a decisões tomadas em qualquer capital estrangeira.
O trabalho além dos palanques
As tarifas americanas merecem atenção. Merecem também firmeza na defesa dos interesses nacionais. O que não merecem é pânico. Nem a ilusão de que slogans eleitoreiros resolverão negociações complexas. Em meio ao ruído político, o trabalho mais importante continua sendo o dos diplomatas que negociam, dos empresários que exportam e dos técnicos que ampliam espaços de manobra do País. É deles que dependerá o resultado concreto desta disputa. Não dos palanques.



