A renúncia de Keir Starmer encerrou um dos governos mais breves e desmoralizados da história recente do Reino Unido. Menos de dois anos após uma vitória esmagadora, o líder trabalhista deixou o cargo de primeiro-ministro, anteontem, rejeitado pelo eleitorado e isolado em seu próprio partido.
Um desfecho previsível
Esse desfecho era previsível. Depois de 14 anos de governos conservadores marcados por escândalos, turbulência econômica e os duros efeitos do Brexit, os eleitores estavam exaustos. Muitos votaram menos a favor dos trabalhistas do que contra os conservadores. Starmer e seu partido, contudo, interpretaram esse repúdio como um mandato para a retomada de sua velha cartilha estatista.
Direção equivocada
Starmer foi acusado de não ter determinação ou visão. Mas a direção era clara – e equivocada. O governo aumentou impostos numa economia de crescimento anêmico, expandiu regulações, reforçou sindicatos e recuou diante de qualquer política de contenção de gastos. No dilema entre criar e distribuir riqueza, inclinou-se obstinadamente para a segunda opção – e acabou apenas gerindo a escassez.
Desafios estruturais
A bem da verdade, os desafios do Reino Unido não começaram com Starmer. O crescimento é fraco há mais de uma década. A produtividade decepciona. A população envelhece. O sistema de saúde consome recursos crescentes. O Brexit reduziu margens comerciais que governos posteriores herdaram sem poder ignorar.
A crise, ademais, revela uma dificuldade estrutural da social-democracia europeia. Seus líderes prometem proteger o Estado de bem-estar, fortalecer serviços públicos e aliviar o custo de vida. O problema surge na hora de financiar essas promessas em economias que crescem pouco e acumulam dívida. A centro-esquerda quer preservar o Estado social, mas mostra pouca disposição para reformá-lo.
Avanço populista
O impasse explica o avanço populista. Governos respondem por resultados; movimentos insurgentes, por expectativas. Um governo precisa explicar restrições fiscais e escolhas difíceis. Um demagogo pode prometer crescimento maior, imigração menor e novos benefícios – simultaneamente. É nesse ambiente que o Reform UK cresce e a fragmentação política britânica se aprofunda.
O legado para o sucessor
Andy Burnham, o favorito para assumir o governo, herdará a mesma economia, a mesma desconfiança dos mercados e as mesmas limitações orçamentárias que culminaram no enfraquecimento político e na renúncia de Starmer. Se responder ao fracasso deste intensificando a agenda trabalhista, descobrirá mais cedo do que tarde que entusiasmo político não altera aritmética fiscal.
O Reino Unido continua sendo uma democracia sólida e um país capaz de se reformar. A questão que se impõe ao sucessor de Starmer é menos partidária do que nacional: o que os britânicos estão dispostos a sacrificar para voltar a prosperar? Sem essa resposta, novos líderes continuarão chegando ao número 10 de Downing Street com promessas grandiosas e saindo dele carregando a mesma frustração.



