Benedito Ruy Barbosa: a ousadia de mergulhar no Brasil profundo
Benedito Ruy Barbosa: ousadia de mergulhar no Brasil

Quando Benedito Ruy Barbosa, autor que morreu nesta terça-feira, 7, aos 95 anos, trocou a TV Globo pela TV Manchete, em 1990, ele já era um dramaturgo consagrado. A temática de suas principais obras apresentadas até aquele momento, entre elas, Cabocla (1979) e Paraíso (1982), se voltavam principalmente para o campo, com mocinhas românticas e sonhadoras, um dos combustíveis do melodrama. No entanto, faltava algo de mais ousado, que o horário das seis da tarde que lhe ofereciam não era suficiente: um grande e profundo mergulho no Brasil.

A estreia de Pantanal e a virada na carreira

Com a estreia de Pantanal, em 27 de março daquele ano, Barbosa, com quase 60 anos, sabia que não sairia o mesmo das águas do bioma que muitos pouco conheciam. Se antes Dias Gomes (1922-1999) já havia usado o realismo fantástico para falar das agruras e da política brasileiras - com o homem que colocava formiga pelo nariz, o rapaz que tinha asas ou a senhora que explodia de tanto comer -, Barbosa foi fundo naquilo que os homens e mulheres de carne e osso que viviam nos rincões do Brasil, e nas lendas que contavam.

Em Pantanal, a arredia Juma era filha de Maria Marruá, mulher cujo apelido remetia aos animais bravos que vivem soltos pela região pantaneira. Moça de gênio forte, traçou seu próprio destino, perfil oposto das mocinhas típicas e estereotipadas tão comuns das telenovelas até então. De outro lado, estava Maria Bruaca, submissa ao marido que toda noite lhe perguntava se ela não iria servi-lo. Um dos capatazes da fazenda de Zé Leôncio, dizia ter pacto com o 'cramulhão'.

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Direção cinematográfica e sucesso estrondoso

Com direção de Jayme Monjardim, Pantanal ganhou ares cinematográficos e trouxe uma narrativa mais lenta à teledramaturgia brasileira - como se o enredo acompanhasse o lento caminhar das paisagens locais, voasse pleno como garças e tuiuiús e nadasse sorrateiro como jacarés nos rios. Em momentos-chaves, o bote certeiro de onça. Foi um sucesso. De volta à Globo, Barbosa seguiu com o que ficou conhecida informalmente como sua 'trilogia do campo'.

Com Renascer, a trama sequente, de 1993, foi para Ilhéus, no sul da Bahia, para mostrar o cultivo de cacau. O personagem José Inocêncio, jovem que foi buscar seu norte, depois de ser sangrado vivo, finca seu facão aos pés de um jequitibá-rei. Torna-se o 'coronelzinho' de corpo fechado que cria o 'cramulhãozinho', seu protetor, em uma garrafa. Era de arregalar os olhos em frente à TV.

Temas ousados em Renascer

Na superprodução Renascer, em 216 capítulos, Benedito discutiu temas como o hermafroditismo, termo atualmente não mais aceito, por meio da personagem Buba - e, de certa forma, a homofobia, já que ela, batizada como Alcides, era esposa de um dos filhos de José Inocêncio. Colocou o tema do celibato em debate - o padre que se apaixonava pela esposa de um pobre coitado. A professorinha que chega para tirar adultos e crianças da ignorância.

Renascer deixou dois grandes presentes para o público. Um, a atuação de Fernanda Montenegro como Jacutinga, a dona do bordel que servia trabalhadores e donos da fazenda de cacau. A despedida dela da cidade é de arrancar lágrimas - e uma metáfora para a inevitável passagem do tempo. A morte de Zé Inocêncio, interpretado por Antônio Fagundes, anunciada por uma trupe de artistas mambembes que chegavam à região, é pura poesia. A direção foi de Luiz Fernando Carvalho.

O Rei do Gado e a crítica política

Em O Rei do Gado, de 1996, Barbosa opôs as famílias Mezenga e Berdinazzi - lideradas pelos fazendeiros Bruno (Fagundes) e Geremias (Raul Cortez) -, para, entre elas, dar voz a uma sem-terra, Luana, com Patrícia Pillar em um de seus grandes personagens na TV. Das três novelas da seara rural, O Rei do Gado foi a mais abertamente política. A imagem do íntegro senador Caxias (Carlos Vereza) discursando para um Congresso Nacional vazio, ou melhor, para dois senadores, um lendo jornal e outro falando ao celular, colocou em debate o nível ético dos políticos brasileiros e causou indignação entre aqueles que detinham mandato na época. Sobre o que ele falava? Justamente da situação precária dos trabalhadores rurais no Brasil.

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Outras obras e legado

Barbosa ainda escreveria tramas de fôlego, como Terra Nostra (1999), com a saga dos imigrantes italianos no início do século 20, temática que ele já havia explorado em Os Imigrantes (1981), na TV Bandeirantes, Esperança (2002), uma espécie de continuação de Terra Nostra, passada na década de 1930, pós-quebra da Bolsa de Nova York, e Velho Chico (2016), sua trama nordestina, escrita em parceria com sua filha, Edmara Barbosa.

Em 2022 e 2024, respectivamente, a Globo apresentou os remakes de Pantanal e Renascer, adaptados pelo neto de Barbosa, Bruno Luperi. A primeira, com grande êxito, soube captar a magia que o autor havia impresso em sua pioneira versão. A segunda, com brilho apagado, perdeu ritmo e se mostrou inferior à original.

O recado de Barbosa

O recado de Barbosa, no entanto, já havia sido dado: é preciso coragem para olhar para o Brasil. Como diz a canção Notícias do Brasil, de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Aqui vive um povo que cultiva a qualidade/ser mais sábio que quem o quer governar!/A novidade é que o Brasil não é só litoral!/É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul”.

A propósito, se Benedito Ruy Barbosa fosse uma canção, ele certamente seria Pantanal, composição que Marcus Viana fez para a abertura da maior criação do dramaturgo: Barbosa é “gente que entende e que fala a língua das plantas, dos bichos/ Gente que sabe o caminho das águas das terras, do céu/ Velho mistério guardado no fundo das matas sem fim”. O ponto final do dramaturgo é escrito com terra vermelha e borrado pelas águas do Brasil.