O presidente Vladimir Putin enfrentou duas visões rivais sobre o futuro da Rússia ao sediar sua principal conferência anual de investimentos, enquanto a guerra na Ucrânia continua. Alguns participantes do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo disseram que a Rússia deveria continuar lutando e se preparar para um confronto global com o Ocidente. Outros destacaram os benefícios econômicos a serem colhidos com o fim de uma guerra que quase chegou à porta do fórum quando drones ucranianos atingiram um terminal de petróleo e uma base naval de São Petersburgo na quarta-feira, lançando fumaça sobre partes da cidade.
Equilíbrio entre facções rivais
Putin, 73 anos, há muito tempo governa equilibrando as opiniões de diferentes facções do Kremlin que disputam influência. Os sinais de que a economia de US$ 3 trilhões está estagnada fortaleceram os argumentos de alguns dentro da elite de que a guerra deveria ser encerrada e a paz alcançada com a mediação do presidente dos EUA, Donald Trump. Mas alguns nacionalistas veem a guerra apenas como o primeiro estágio de um confronto global muito mais profundo com o que eles dizem ser um Ocidente em declínio, o que significa anos – ou até décadas – de possível guerra global.
Nacionalistas pregam guerra prolongada
“Temos que admitir que estaremos em guerra nos próximos anos, talvez por algumas décadas”, disse Andrey Bezrukov, um ex-espião preso pelo FBI em 2010. “Pode ser uma guerra muito violenta, pode ser uma guerra gradual. Mesmo que se espalhe para outras regiões, teremos duas gerações que podem ser consideradas, basicamente, em estado de guerra. E precisamos aprender a conviver com essa guerra”, disse Bezrukov, sob aplausos. Nacionalistas russos afirmam que o país precisa se preparar ou enfrentará um possível colapso. Entre as ideias apresentadas estavam a simplificação da tomada de decisões, o desenvolvimento de tecnologia e a mudança da percepção do exército russo na sociedade.
Armas em exposição
Em pavilhões que antes eram agraciados por financistas de empresas ocidentais, como Goldman Sachs e Citi, drones e armas eram exibidos, enquanto empresas cibernéticas anunciavam tecnologia de reconhecimento facial e programas avançados de defesa cibernética que utilizam inteligência artificial. A Rússia controla cerca de um quinto do território ucraniano após a decisão de Putin de enviar dezenas de milhares de tropas em fevereiro de 2022, mas seus avanços no campo de batalha diminuíram este ano.
Impasse nas negociações
Com o impasse nas negociações de paz intermediadas pelos EUA, a guerra se arrastou, e o Kremlin diz que os EUA agora estão preocupados com sua guerra contra o Irã. “Infelizmente, eles estão prestando menos atenção”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova. Várias figuras importantes da Rússia tentaram alertar Putin sobre as consequências econômicas da guerra. Kirill Dmitriev, o homem de confiança da Rússia em contatos com o governo Trump, tem divulgado os possíveis benefícios econômicos de um acordo de paz.
“A questão é: essa guerra vai acabar ou vamos nos deparar com um futuro muito mais difícil?”, disse um participante russo à Reuters, sob condição de anonimato. Putin afirma que Moscou não tem intenção de atacar a Otan, cuja economia combinada dos Estados-membros supera em muito a da Rússia. Mas o ideólogo russo ultranacionalista Alexander Dugin, cuja filha Darya foi morta em um carro-bomba em 2022, disse que a guerra na Ucrânia “terminará com a vitória da Rússia ou nunca terminará.” “Precisamos reunir todas as nossas forças, reunir toda a nossa vontade e parar de fingir que somos um país pacífico que sai para churrascos ou férias de verão”, disse ele. Quando perguntado sobre as relações da Rússia com o Ocidente nos próximos anos, ele disse simplesmente: “Guerra”.



