Trump assina acordo interino de paz com o Irã
Trump assina acordo interino de paz com o Irã

O presidente Donald Trump assinou um acordo interino para encerrar a guerra com o Irã e reabrir o Estreito de Ormuz, acelerando o cronograma para que o entendimento entre em vigor, apesar da reação de republicanos, que disseram que a medida equivale a uma vitória para Teerã.

Autoridades dos Estados Unidos e do Irã assinaram eletronicamente um acordo interino de paz na noite desta quarta-feira (17), segundo uma autoridade americana e a mídia estatal iraniana. O chamado memorando de entendimento já está em vigor, disse uma autoridade dos EUA. Ainda não estava claro se o Estreito de Ormuz já havia sido reaberto.

Trump assinou o documento no Palácio de Versalhes, perto de Paris, onde jantou com o presidente francês, Emmanuel Macron, segundo autoridades dos EUA e da França.

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Segundo um rascunho visto pela Bloomberg e uma versão lida a repórteres por uma alta autoridade americana na quarta-feira, o estreito seria reaberto rapidamente, após meses de fechamento que fizeram os preços globais de energia dispararem. O texto também prevê isenções imediatas de sanções para o petróleo iraniano. Depois, virão conversas sobre a questão nuclear e possíveis ganhos financeiros adicionais para o Irã.

Com o acordo em vigor, a atenção se volta agora para as empresas de navegação, que em grande parte haviam deixado de enviar embarcações pela rota por causa dos bloqueios impostos tanto pelos Estados Unidos quanto pelo Irã. Trump havia dito anteriormente que o acordo seria assinado em 19 de junho para permitir a remoção de eventuais minas no estreito.

De volta a Washington, o acordo provocou críticas incomumente duras de alguns aliados do presidente, que haviam celebrado sua campanha militar contra o Irã. “A história ensina que dar bilhões de dólares a lunáticos teocráticos que querem nos matar não é uma boa ideia”, disse o senador Ted Cruz, republicano do Texas.

Até o senador Lindsey Graham, um dos aliados mais próximos de Trump no Capitólio, afirmou que o memorando não é exatamente um acordo, mas uma estrutura para chegar a um acordo. Embora tenha elogiado Trump por tentar fechar um entendimento, Graham, republicano da Carolina do Sul, admitiu que há “partes de que não gosta” e levantou dúvidas sobre a capacidade do presidente de obter um acordo firme com o Irã sobre seu programa nuclear.

Com a redução da oferta de energia do Golfo durante os três meses de conflito e o aumento das pressões econômicas no mundo, Trump sinalizou que o risco de uma grande crise econômica teve papel central em sua decisão de encerrar a guerra iniciada em fevereiro. Trump, na França, onde participou de uma cúpula do G7, disse que a escalada militar “poderia ter causado uma depressão internacional”.

O presidente também defendeu a exclusão do programa de mísseis balísticos do Irã do acordo, ponto citado por autoridades israelenses e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, como justificativa para a guerra. Na quarta-feira, Trump disse a repórteres na França que os mísseis serão discutidos nas próximas conversas sobre o programa nuclear iraniano, embora o Irã “tenha de ter alguns, porque outros países também têm”. Rubio já havia argumentado que os mísseis e drones iranianos poderiam servir de escudo para o país desenvolver armas nucleares.

Trump também defendeu o programa de desenvolvimento de US$ 300 bilhões previsto no memorando, reiterando que não haverá dinheiro do governo americano nisso e que o Irã só poderá se beneficiar se “se comportar”. Ele acrescentou que as forças americanas voltariam a atacar o Irã se seus líderes não cumprirem o acordo.

Mas Trump indicou que está pronto para liberar bilhões de dólares em ativos iranianos congelados ao longo dos anos pelos EUA — algo que antes havia descartado. Agora, argumenta que seria ruim para o dólar não fazê-lo. “Em algum momento, acho que teremos de devolver isso”, disse. “Se não devolvêssemos, ninguém mais investiria em dólar.”

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O acordo preliminar trouxe alívio aos mercados globais de energia, com o Brent caindo abaixo de US$ 80 o barril nesta semana, embora tenha reduzido ligeiramente as perdas na quarta-feira. Ao mesmo tempo, o memorando deixará a maior parte dos pontos mais espinhosos — como a disputa sobre os estoques iranianos de urânio altamente enriquecido — para um período futuro de 60 dias de negociações. Na quarta-feira, Trump disse a repórteres na França que não via os 60 dias como um prazo “rígido”, “desde que eles estejam se comportando”.

Essas negociações devem ser tensas, já que Trump enfrenta pressão crescente de aliados republicanos, que dizem que ele está cedendo demais e defendem que as forças americanas “terminem o trabalho”. “O Irã está hoje em posição frágil, mais fraco do que jamais esteve”, disse Mike Pence, vice-presidente de Trump no primeiro mandato, à Bloomberg Government. “Minhas preocupações com o memorando, agora que o vimos, têm a ver com o fato de que não há menção ao desmonte verificável do programa de armas nucleares. Ele apenas repete a mesma promessa que o Irã já fez no passado de não ter um programa nuclear.”

O acordo traz riscos políticos para Trump, que durante anos afirmou que o pacto de 2015 negociado com o Irã no governo Barack Obama era o “pior acordo da história” e equivalia a uma enorme concessão financeira a Teerã. Trump abandonou aquele entendimento em 2018 e prometeu algo muito melhor. Mas, à medida que mais detalhes sobre o alcance do acordo vieram à tona, alguns parlamentares tradicionais do Partido Republicano fizeram críticas duras, sugerindo que a guerra contra o Irã não valeu a pena.

“Antes da guerra, o estreito estava aberto, o Irã estava sendo esmagado por sanções e 13 militares ainda estavam vivos”, escreveu nas redes sociais o senador Bill Cassidy, da Louisiana. “Agora, 13 americanos estão mortos, famílias pagaram bilhões nos postos de gasolina, as sanções serão suspensas e os bombardeios pararam”, disse Cassidy. “Este é o pior erro de política externa em décadas.”

Outros republicanos pediram mais pressão sobre o Irã. “Deveríamos apertar ainda mais o cerco se quisermos obter o tipo de concessão necessário para garantir ou remover o material nuclear”, disse na quarta-feira o senador republicano Todd Young, de Indiana.

O memorando deve ser assinado formalmente pelo vice-presidente JD Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, na cidade suíça de Bürgenstock, um resort nas montanhas com vista para o Lago Lucerna. Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, iniciaram a guerra bombardeando o Irã em 28 de fevereiro, argumentando que a medida era necessária para impedir que a República Islâmica desenvolvesse uma arma nuclear.

Os preços do petróleo caíram com o acordo entre Irã e EUA, e eles dispararam quando a guerra começou, pressionando a inflação no mundo. Mas a guerra ficou aquém de seus objetivos iniciais. Embora suas forças tenham atingido o aparato militar e a economia iraniana, a República Islâmica continua de pé, apesar de Trump ter dito que o povo iraniano poderia “tomar” seu governo. Teerã também mostrou que ainda pode ameaçar a região com drones e mísseis e pressionar a Casa Branca a fechar um acordo ao, na prática, fechar o Estreito de Ormuz. A alta dos preços nos EUA atingiu a popularidade de Trump e do Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato de novembro.

No centro do acordo interino, ele “troca a reabertura do Estreito de Ormuz por alívio econômico”, disseram analistas da Bloomberg Economics, entre eles Dina Esfandiary e Ziad Daoud. “Mas a troca é desigual: os ganhos de Teerã serão amplos e novos. Washington apenas recuperará alguns benefícios que já existiam antes do início da guerra, em fevereiro.”