La Guaira, um dos principais destinos turísticos da Venezuela, transformou-se no epicentro da maior tragédia do país em décadas. Os enviados especiais Álvaro Pereira Júnior e Eduardo Apolinário estiveram na região mais afetada pelos terremotos duplos que devastaram a cidade.
Destruição total na Avenida Beira-Mar
“De fato, hoje, a gente está no ponto central da destruição provocada pelo terremoto duplo da Venezuela. Aqui é exatamente onde a cidade de La Guaira, capital do estado do mesmo nome, deixa de ser uma cidade normal para ser uma cidade destruída”, relata o repórter Álvaro Pereira Júnior. “Vindo de Caracas, a gente pegou a Avenida Beira-Mar — o mar está atrás da gente. Você vê uma cidade que não tem sinais de destruição aparentes, até chegar a esse ponto. É uma avenida como se fosse a Avenida Atlântica, em Copacabana. Desse ponto para cá, atrás de mim, a gente vê grandes vazios; ali existiam prédios residenciais muito altos. Agora, não tem mais nada. Desse ponto para cá, a cidade é desse jeito, é destruição seguida de destruição.”
O contraste é brutal: enquanto as favelas nos morros adjacentes permanecem intactas, os edifícios de concreto da orla desapareceram. “Para a gente ver como é complexo um fenômeno sismológico como o terremoto aqui da Venezuela, se a gente olhar à minha esquerda, à direita do vídeo, está vendo que tem umas luzinhas acesas ali no morro? Então, aquilo são o que a gente chama no Brasil de barracos, ali é uma favela. E está tudo inteiro lá, não aconteceu nada. Já os edifícios de concreto e de cimento da Avenida Beira-Mar, na sua grande maioria, desapareceram.”
Bombeiros internacionais e esperança de sobreviventes
Nesse ponto crítico, equipes de bombeiros do mundo inteiro, incluindo a Defesa Civil do Brasil, concentram esforços. O chefe da missão brasileira informou que dois locais de busca deram sinais de que pode haver pessoas vivas nos escombros, mesmo tantos dias após o terremoto. Um exemplo é Fabio, menino de 9 anos que estava com a mãe quando o prédio desabou na quarta-feira (24). A mãe escapou, e na quinta-feira (2) à tarde, Fabio deu sinais de vida, segundo os socorristas. “Não perco a esperança. Enquanto for possível, continuarei buscando meu filho”, diz o pai.
Mais de 2,6 mil mortes foram confirmadas. Nove dias depois dos terremotos, as equipes de resgate ainda procuram sobreviventes. Uma das dificuldades é a chegada de máquinas capazes de remover blocos de concreto. Quarteirões inteiros de La Guaira agora são escombros.
Ajuda internacional e preocupações sanitárias
Bombeiros brasileiros estão entre as equipes internacionais que desde a semana passada trabalham na região. A Marinha montou um hospital de campanha. A Organização Mundial da Saúde alertou que a baixa cobertura de vacinas pode favorecer que doenças como sarampo se espalhem nos abrigos que recebem sobreviventes.
Críticas ao governo e desaprovação popular
Uma pesquisa apontou que mais da metade dos venezuelanos considera muito ruim a forma como o governo está lidando com a tragédia. A desaprovação da presidente interina Delcy Rodríguez subiu desde os terremotos. Delcy concedeu na quinta-feira (2) a primeira entrevista coletiva desde que assumiu o cargo – após a derrubada de Nicolás Maduro, em janeiro de 2026. Grupos de direitos humanos e familiares de vítimas têm criticado a atuação do governo venezuelano. A presidente negou lentidão na resposta à tragédia: “Não esperamos um, dois ou três dias. Agimos imediatamente”. Nesta sexta-feira (3), Delcy visitou no hospital o vigilante resgatado depois de ficar oito dias sob os escombros.



