Ironbound: de santuário a alvo do ICE, bairro imigrante respira com a Copa
Ironbound: de santuário a alvo do ICE, bairro respira com a Copa

O bairro do Ironbound, em Newark, Nova Jersey, vive um paradoxo. Tradicional porto de acolhida para imigrantes há quase dois séculos, hoje está na lista de alvos prioritários de fiscalização de imigração do governo Trump. Mas, durante a Copa do Mundo, as ruas se enchem de bandeiras verde e amarela, vermelha e verde de Portugal, amarela do Equador, e o medo dá lugar à festa.

Um bairro forjado por imigrantes

O nome Ironbound vem das ferrovias que o cercaram no século XIX. Desde os anos 1830, recebeu alemães, poloneses, italianos, portugueses e, mais recentemente, brasileiros, cabo-verdianos e equatorianos. Hoje, dois em cada três moradores nasceram fora dos Estados Unidos. A comunidade brasileira é expressiva: cerca de 15 mil pessoas de ascendência brasileira vivem em Essex County, o dobro do registrado no Censo de 2000, e estimativas apontam que 26% dos moradores do Ironbound têm ascendência brasileira, com quase metade da população falando português em casa.

"Quando eu era menininho, com 5, 6 anos de idade, a comunidade aqui nem se preocupava com deportação", lembra Kalani Mubarak, filho do fundador do restaurante Boi na Brasa, que nasceu no bairro. "Era sempre uma cidade santuário para os imigrantes. Tu chegava aqui, de qualquer país que fosse, e sabia que seria acolhido. Daí veio o Trump com essas leis do ICE e começaram a invadir a nossa cidade."

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De santuário a alvo

Em agosto de 2025, o Departamento de Justiça dos EUA publicou uma lista de jurisdições-santuário — onde autoridades locais não cooperam com a fiscalização federal — e Newark estava entre os alvos prioritários, ao lado de Chicago, Los Angeles e Nova York. As consequências foram imediatas. Em 23 de janeiro de 2025, três dias após a posse de Trump, agentes do ICE realizaram uma operação no Ocean Seafood Depot, no Ironbound, detendo três funcionários. O prefeito de Newark, Ras Baraka, condenou a ação: "Agentes do ICE invadiram um estabelecimento local em Newark, detendo residentes sem documentação, bem como cidadãos, sem apresentar um mandado. Newark não ficará de braços cruzados enquanto pessoas são ilegalmente aterrorizadas."

Em novembro, nova operação no mesmo depósito, com mais de duas dúzias de agentes, resultou em cerca de 20 pessoas interrogadas e detidas. O medo se instalou. "Eles ficaram com medo de sair de casa para qualquer coisa e estavam ficando mais em casa, pedindo delivery, fazendo a própria comida", relata Mubarak.

O centro de detenção a poucos quarteirões

A menos de dois quilômetros do Boi na Brasa fica o centro de detenção Delaney Hall, com capacidade para mil pessoas, operado pela GEO Group sob contrato com o ICE. Em maio de 2025, o próprio prefeito Baraka foi preso pelo ICE em frente ao centro ao tentar acompanhar uma visita de fiscalização do Congresso. A acusação foi retirada depois. Em maio de 2026, cerca de 300 detentos iniciaram uma greve de fome denunciando condições precárias, falta de assistência médica e alimentos estragados. Os protestos resultaram em confrontos, toque de recolher e ao menos 50 prisões em uma única noite. O secretário de Segurança Interna negou a greve de fome.

"Eles já pegaram um cliente nosso na porta do restaurante, inclusive. Assistimos tudo", diz Mubarak. "É, muito triste, né? Muita gente do bem, trabalhador que não tem nem tempo de fazer nada de errado. Trabalha 7 dias por semana, 6 dias por semana só para pagar conta, mandar dinheiro para o seu país."

A Copa como respiro

A Copa do Mundo trouxe um clima festivo que contrasta com a tensão cotidiana. O Brasil jogou a fase de grupos inteira nos EUA — Nova York, Filadélfia e Miami — e a final será em East Rutherford, a menos de 30 km do Ironbound. "Parece que o pessoal está saindo sem medo, afinal não tem como viver lacrado dentro de casa, é impossível. E agora o movimento já aumentou bastante com essa questão da Copa do Mundo", diz Kalani. No Boi na Brasa, estima-se que entre 1,5 mil e 2 mil pessoas passem pelo restaurante a cada jogo do Brasil.

José Moreira, dono de cinco restaurantes no bairro, afirma que esta é a melhor Copa financeiramente em quase quatro décadas nos EUA. "Em todas as Copas que eu estou aqui, em todos esses 38 anos, essa superou todas. Para o meu negócio, está maravilhoso."

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ICE mais discreto, mas não menos ativo

A impressão de que o ICE reduziu a pressão durante a Copa não é oficial, mas sentida na comunidade. No entanto, dados revelados pelo New York Times em 1º de julho de 2026 indicam que agentes federais detiveram mais de 10 mil pessoas em apenas cinco dias, com o número de detenções diárias dobrando para perto de 2,4 mil. A população sob custódia ultrapassou 63 mil pessoas. O secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, disse querer operações "mais silenciosas", distanciando-se das operações-espetáculo de sua antecessora. O ICE não parou; ficou mais discreto. "Semana passada levaram uma pessoa que eu conhecia, um brasileiro que estava aqui há muito tempo", conta Mubarak. "Também tinha um ponto num parque cerca de 1 km daqui, onde ficavam aglomerados pessoas sem residência, e que também eram imigrantes. O ICE levou todos."

Um ciclo que se repete

Em janeiro de 1995, o New York Times publicou uma reportagem sobre o Ironbound intitulada "Em Newark, imigração sem medo", descrevendo como imigrantes que antes fugiam da imigração se tornaram proprietários de comércios. Três décadas depois, o ciclo se repete com brasileiros e equatorianos. José Moreira, que chegou como jardineiro em 1987 e hoje tem cinco restaurantes, resume: "Aqui em Newark a gente tem um prefeito que ama o Brasil. Ele está sempre no meio da gente... Quem você está em Newark, você está no Brasil. É um pedaço do Brasil." Sua estimativa de 30 mil brasileiros em Newark é maior que o Censo, refletindo a comunidade não documentada.

Quando a Copa terminar, a rotina de operações do ICE e o centro de detenção Delaney Hall continuarão. Por enquanto, a comunidade celebra. "Estou confiante, muito confiante. O hexa vem esse ano", diz Kalani Mubarak.