Às vésperas do 4 de julho, data que marca os 250 anos da independência dos Estados Unidos, o historiador Nikhil Pal Singh, professor da Universidade de Nova York, oferece uma reflexão crítica sobre o significado da celebração. Em entrevista, ele descreve os EUA como um 'país muito diverso, que ao mesmo tempo exclui certas pessoas', destacando que a construção de uma sociedade democrática ainda está incompleta.
Democracia incompleta e exclusão histórica
Singh argumenta que a noção de liberdade que fundamenta a independência americana sempre foi restrita. 'A liberdade era um privilégio de homens brancos proprietários de terras', afirma. Ele aponta que negros e indígenas foram sistematicamente excluídos do projeto democrático desde o início, e que essa exclusão persiste até hoje, manifestando-se em desigualdades estruturais, violência policial e disparidades econômicas.
O historiador ressalta que a segregação racial, embora formalmente abolida, deixou marcas profundas. 'O racismo não é um acidente na história americana; é uma característica constitutiva', diz. Ele cita dados do censo que mostram que a renda média das famílias brancas é quase o dobro da das famílias negras, e que a taxa de encarceramento de negros é cinco vezes maior que a de brancos.
Hipocrisia na política externa
Singh também critica a política externa dos EUA, que frequentemente se apresenta como defensora da liberdade e da democracia no mundo, mas age de forma imperialista. 'Os EUA invadem países, derrubam governos e impõem sanções, tudo em nome da liberdade', ironiza. Ele cita exemplos como a Guerra do Vietnã, as intervenções no Oriente Médio e o apoio a ditaduras na América Latina durante a Guerra Fria.
Para Singh, essa hipocrisia mina a credibilidade dos EUA como promotor da democracia global. 'Como podemos celebrar a independência enquanto negamos a autodeterminação de outros povos?', questiona.
O legado da independência
Apesar das críticas, Singh reconhece que a declaração de independência de 1776 estabeleceu princípios universais que ainda inspiram lutas por justiça social. 'A ideia de que todos os homens são criados iguais é poderosa, mesmo que tenha sido negada na prática', afirma. Ele vê nos movimentos sociais contemporâneos, como Black Lives Matter e as lutas dos povos indígenas, uma continuidade da busca por uma democracia real.
O historiador conclui que os 250 anos de independência são um momento para reflexão, não apenas celebração. 'Precisamos reconhecer as falhas do passado e trabalhar para construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva', diz. 'A democracia americana ainda está em construção.'



