Brasil busca negociar tarifas de Trump em reunião do G7 na França
Brasil busca negociar tarifas de Trump em reunião do G7

O governo brasileiro está empenhado em negociar as novas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a reunião do G7, que ocorre nesta semana na França. A informação foi apurada pela GloboNews, que indica que diplomatas brasileiros esperam um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump para destravar as negociações. No entanto, a reunião bilateral ainda não foi confirmada, e a falta de interação entre os dois líderes durante a foto oficial do grupo pode ser um mau sinal.

Contexto das tarifas

O G7 reúne as sete maiores economias desenvolvidas do mundo e discute temas globais como economia, conflitos, clima e segurança. O Brasil não faz parte do grupo, mas foi convidado para participar da cúpula. Desde o ano passado, quando Trump anunciou as primeiras taxas de importação sobre produtos brasileiros, o Brasil tenta negociar a retirada das tarifas. Em novembro de 2025, houve um avanço quando a Casa Branca eliminou a tarifa de 40% que incidia sobre diversos itens exportados pelo país.

As novas tarifas de 25% anunciadas neste mês são consideradas pelo governo brasileiro como uma medida de caráter mais político do que comercial. Integrantes do governo afirmam que a decisão ignora argumentos técnicos apresentados por representantes comerciais brasileiros nos últimos meses. No entanto, a medida segue um padrão adotado por Trump em outras ocasiões: utilizar tarifas como instrumento de pressão em negociações comerciais e diplomáticas.

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Estratégia em favor dos EUA

Como o g1 já mostrou, a ameaça tarifária é uma estratégia antiga do presidente americano em disputas comerciais e diplomáticas. O objetivo é obter vantagens em negociações bilaterais. Em seus dois mandatos, Trump deixou claro que uma de suas prioridades é fortalecer a atividade econômica doméstica, limitando a concorrência estrangeira. Em 2018, por exemplo, Trump anunciou tarifas sobre as importações de aço e alumínio, produtos exportados pelo Brasil para os EUA. Pouco depois, os dois países negociaram um sistema de cotas que permitia a venda com isenção ou redução de tarifas até determinado limite.

No episódio mais recente, o governo americano afirmou que uma investigação do Escritório de Comércio (USTR) concluiu que o Brasil adota práticas consideradas "irrazoáveis" por onerar ou restringir o comércio com o país. Como resultado, propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

Por que o Brasil virou alvo da investigação?

Em um decreto posterior, Trump citou 60 países — entre eles o Brasil — que falharam em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Como consequência, propôs uma tarifa adicional de 12,5%, elevando a taxação potencial sobre produtos brasileiros para 37,5%. Nos dois casos, porém, os EUA divulgaram uma extensa lista de exceções. No caso brasileiro, os produtos excluídos das medidas representam cerca de 60% das exportações para o mercado americano.

"Em nossa avaliação, o impacto econômico direto tende a ser limitado, uma vez que a lista de isenções permanece extensa e abrange parcela significativa das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos", afirmaram os analistas Luiza Paparounis e Francisco Lopes, do BTG Pactual, em relatório recente.

Outros exemplos pelo mundo e os efeitos para os EUA

O Brasil não é o único parceiro comercial dos EUA atingido por tarifas. União Europeia, China, Canadá, México e outros países também foram alvo de medidas semelhantes adotadas por Trump. Além de alegar que esses países mantêm relações comerciais injustas com os EUA, Trump também recorreu a diferentes justificativas para defender as tarifas, incluindo combate ao narcotráfico, crime organizado, imigração ilegal, segurança de fronteira, comércio digital, corrupção e até o PIX brasileiro.

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"Trump usa essa questão tarifária como uma arma, e já vimos isso várias vezes. No Brasil, quando houve o choque com o nosso judiciário, ou na Índia, que continuava a comprar petróleo russo", avalia a diretora da Faculdade de Relações Internacionais da PUC-Campinas, Kelly Ferreira. "E mesmo que a Suprema Corte americana já tenha tentado derrubar as tarifas globais impostas em 2025, o Trump está sempre buscando novas formas de usar essas taxas a seu favor", completa a especialista. Ela acrescenta que até a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas teria um componente econômico, ao dar mais flexibilidade para Trump adotar novos embargos.

Em vários dos casos, a estratégia foi semelhante: o republicano anunciou tarifas, estabeleceu prazos para negociação e buscou obter vantagens competitivas, além de maior abertura dos mercados para a indústria americana. Trump também afirmou, em diversas ocasiões, que as tarifas serviriam como fonte de receita para o governo, ajudariam a reduzir a dívida pública e fortaleceriam a economia americana. O republicano não conseguiu cumprir essas promessas. Dados do Tesouro dos EUA mostram que o déficit orçamentário — quando as despesas superam as receitas — cresceu 2% e atingiu US$ 164 bilhões (R$ 827,1 bilhões) em março. A inflação ao consumidor subiu 0,5% em maio, sétimo avanço consecutivo. Em 12 meses, o índice acumulado chegou a 4,2%, mais que o dobro da meta do banco central americano. Já o PIB do país cresceu 1,6% no primeiro trimestre, abaixo da expectativa do mercado, de 2%. A sensação de deterioração da economia americana também já se reflete na popularidade de Trump, que vem caindo desde o início do ano passado.

O que esperar adiante?

Mesmo sem uma definição sobre as tarifas, o governo brasileiro afirma que pretende manter as negociações. Pela legislação americana, a investigação formal ainda precisa ser concluída e consultas públicas devem ocorrer antes de qualquer medida entrar em vigor. O presidente Lula afirmou que enviaria uma nova carta a Trump para tratar do assunto. "A nossa luta é para que esse país não seja tratado em nenhum momento como se fosse uma republiqueta insignificante. Nós temos muita história e não podemos aceitar o tratamento que os EUA deu ao Brasil nesta semana. Não é possível", afirmou o petista após o anúncio das novas taxas.

Com uma agenda extensa e diversos temas relevantes em debate no G7, a reunião entre Lula e Trump pode não ocorrer. Ainda assim, a expectativa é que o presidente brasileiro aproveite o encontro para estreitar relações com outras grandes economias e fortalecer os laços do Brasil com a União Europeia.