Uma cena se repete em Kodoku no Gourmet (ou O Gourmet Solitário) com a regularidade de um ritual: Gorō Inogashira, um comerciante de meia-idade com terno e pasta, empurra a porta de algum restaurante pequeno e desconhecido, senta-se sozinho e come. Não há fanfarra, não há crítica erudita. Há fome, atenção e um prazer silencioso que, ao longo de mais de trinta anos de publicação, conquistou leitores no mundo.
É essa sensibilidade que o chef Tadashi Shiraishi traz para o Kanoe no jantar temático “Kodoku no Kanoe”, no dia 4 de junho. Em dois horários (17h45 e 20h), o balcão do restaurante com uma estrela Michelin nos Jardins se transforma em um pequeno shokudō escondido nas ruelas de Tóquio, pronto para receber seus próprios Gorōs paulistanos.
A solidão que alimenta
Shiraishi conhece bem o tipo de solidão que o mangá retrata. “Durante os anos em que vivi no Japão, passei muito tempo sozinho. Era um cozinheiro imigrante, trabalhando longas jornadas, longe da família e dos amigos”, conta o chef ao Paladar. “Existia uma solidão muito particular naquela rotina, mas também uma beleza silenciosa nela. E Kodoku no Gourmet consegue retratar isso com uma sensibilidade rara”.
Publicada desde 1994 por Masayuki Kusumi e ilustrada por Jiro Taniguchi, a série fez algo que parece simples e é extraordinário: apresentou ao público restaurantes reais, frequentados por pessoas reais, espalhadas pelo Japão, sem transformar a comida em espetáculo. “Ela nunca tenta convencer o leitor de que um restaurante é melhor do que outro”, diz Shiraishi sobre a história do mangá. “É um olhar que observa os lugares, as pessoas, os aromas, os pequenos gestos e os sentimentos que surgem durante uma refeição”.
Para o chef, a conexão entre a obra e o Kanoe não está nos pratos, mas na forma como ambos se relacionam com o ato de comer. “Seja o autor do mangá, eu como cofundador do Kanoe ou os clientes que se sentam à nossa mesa, todos estamos, de alguma forma, buscando algo parecido através da comida e das pessoas com quem nos relacionamos”, diz.
Homenagem, não reprodução
O menu fechado de cinco etapas (R$ 750 por pessoa, com reserva e pagamento prévios) não é uma tentativa de replicar pratos específicos do mangá. Shiraishi descartou esse caminho como “um pouco óbvio e previsível”. A inspiração, explica, veio de camadas mais fundas: dos pequenos shokudō encontrados por acaso, das izakayas escondidas em ruas secundárias, das refeições simples feitas depois de um longo dia de trabalho. “Lugares que talvez nunca apareçam em um guia gastronômico”, diz ele.
O resultado é uma homenagem à maneira do Kanoe, com a mesma artesanalidade e atenção ao detalhe que renderam ao restaurante sua estrela no Guia Michelin 2025. “O que muda é a linguagem através da qual a gente se expressa”, resume o chef. “O Kanoe continua sendo o mesmo em essência”.
Gorō Inogashira, afinal, não é um herói extraordinário. Não tem poderes especiais nem vive grandes aventuras. Mas presta muita atenção e come com mente aberta, sem julgamentos. É exatamente isso que Shiraishi quer à sua mesa nessa noite.
O chá como refeição
No mesmo dia, pela manhã, o Kanoe inaugura uma série paralela de encontros culturais: o Nihon no Bunka. A estreia, às 10h, coloca o chá no centro — não como acompanhamento, mas como protagonista. Em aproximadamente duas horas, os participantes degustam uma sequência de chás japoneses extraídos a frio (mizudashi), acompanhados por uma seleção de wagashi, os delicados doces de estilo japonês.
“Muitas vezes, o chá é visto apenas como uma bebida que acompanha uma refeição”, diz Shiraishi. “Mas existe um universo inteiro construído em torno dele — diversidade de regiões, cultivares, métodos de preparo, estações do ano. Em alguns momentos, a sensação é muito parecida com a de participar de um grande jantar degustação. Só que a narrativa é construída através do chá”.
O segundo encontro da série acontece em 20 de junho, com foco em chás single origin do Japão, da Cha-en. Cada sessão custa R$ 1 mil por pessoa, com reservas pelo e-mail kanoe@omotebako.com.
Serviço
Restaurante Kanoe | Alameda Itu, 1578 – Jardins, São Paulo
Jantar Kodoku no Kanoe: 4 de junho, às 17h45 e 20h | R$ 750 por pessoa
Reservas: kanoe@omotebako.com | @kanoerestaurant



