O 1º Festival do Camarão de Santos, realizado nos dias 30 e 31 de maio, foi muito além dos pratos preparados por Janaína Torres, Cadu Evangelisti e Rubens Catarina, que se esgotaram em menos de duas horas. Com curadoria do chef Dário Costa, o evento marcou o início da safra do crustáceo no litoral brasileiro e reuniu chefs, pescadores, produtores, pesquisadores e consumidores. O objetivo principal foi discutir a pesca sustentável, a cultura marítima e os impactos da alimentação no bem-estar.
Em meio às receitas e degustações, uma pergunta ecoou: afinal, camarão faz bem à saúde? Embora o salmão tenha se tornado o principal garoto-propaganda do ômega-3, ele está longe de ser a única fonte desse nutriente. Sardinha, cavalinha, arenque e diferentes frutos do mar também integram essa lista. O camarão é um deles – e seu valor vai muito além dos bobós, empadinhas, moquecas e morangas amados na culinária brasileira.
Quais os principais benefícios do camarão para a saúde?
O Brasil abriga espécies nativas como o camarão-rosa, o camarão-branco e o sete-barbas – este último especialmente relevante para a atividade pesqueira no litoral paulista. Seja qual for a variedade, o crustáceo reúne proteínas de alto valor biológico, vitaminas do complexo B e minerais essenciais como selênio, fósforo, zinco e iodo. Na prática, é um alimento que fornece energia, atua na formação e renovação dos tecidos e colabora com funções vitais do organismo.
A ligação entre comida e mente também entrou em pauta. Apesar de representar cerca de 2% do peso corporal, o cérebro concentra uma quantidade expressiva de gordura. Parte dela é formada pelo DHA (ácido docosa-hexaenoico), um ômega-3 presente nas membranas dos neurônios e associado ao desempenho cognitivo ao longo da vida. Embora o camarão não figure entre as maiores fontes desse ácido graxo, ele enriquece um padrão alimentar focado na saúde cerebral.
Há ainda outro componente que desperta o interesse dos cientistas: a astaxantina. Responsável pelo tom rosado que surge após o cozimento, essa substância do grupo dos carotenoides vem sendo estudada por sua poderosa ação antioxidante.
O mito do colesterol
O perfil nutricional é, sim, ponto a favor do crustáceo. Com poucas calorias e baixo teor de gordura saturada, ele se alinha a recomendações alimentares voltadas ao controle de peso e à saúde cardiovascular. E, sim, nem sempre a ciência pensou assim. Durante anos, o alimento foi demonizado por apresentar um teor de colesterol superior ao de boa parte das carnes bovinas e de aves. Com o avanço das pesquisas, no entanto, especialistas entenderam que os níveis de colesterol no sangue dependem de um conjunto de fatores, incluindo genética, estilo de vida e o padrão alimentar global. Na prática, o camarão cozido ou grelhado ganhou um status bem diferente das versões fritas, empanadas ou imersas em molhos ricos em gordura.
Durante a programação “Camarão em Cena”, o neurofisiologista Fulvio Alexandre Scorza relacionou alimentação, ciência e sustentabilidade, defendendo escolhas que beneficiem tanto a saúde humana quanto as comunidades ligadas à pesca.
Preparo e conservação do camarão
Dário Costa aproveitou o debate para desmistificar um ponto recorrente sobre o produto: “Camarão não tem odor. O que traz cheiro ruim são as bactérias, e elas aparecem quando há falta de respeito à cadeia do frio”, afirmou o chef, alertando para o cuidado crucial no armazenamento e no transporte.
A conservação do pescado também foi tema central, especialmente o uso do metabissulfito de sódio, conservante utilizado para evitar o escurecimento da carapaça após a pesca. Embora seja considerado seguro dentro dos limites regulatórios, o composto pode provocar reações em pessoas sensíveis aos sulfitos – uma condição diferente da alergia ao camarão em si, que é causada pelas proteínas do próprio crustáceo.
Dário criticou o uso excessivo da substância em parte do mercado: “Muita gente come camarão no Madê e diz que é o único lugar que não dá alergia. Eu compro camarão selvagem de uma única empresa porque ele usa 0,01 grama de sulfito por cada 10 quilos de camarão, só para ele não queimar no congelamento”, revelou.
Nesse sentido, o chef questionou práticas comerciais que associam artificialmente aparência e frescor: “Para falar que é fresco, vende descongelado e cheio de sulfito”. A discussão reforçou a urgência de mais transparência, rotulagem adequada e um controle de qualidade rigoroso ao longo de toda a cadeia produtiva.
Ao aproximar gastronomia, pesquisa científica e a realidade dos pescadores, o Festival do Camarão provou que um dos ingredientes mais populares do litoral brasileiro rende debates necessários que vão muito além do prato.



