Leônio Soares Galvão, de 96 anos, testemunhou todas as cinco conquistas da Seleção Brasileira em Copas do Mundo – 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Morador do Bairro Industrial, em Juiz de Fora, ele mantém há mais de quatro décadas uma tradição: pintar muros, postes e enfeitar a rua onde vive a cada Mundial. Em 2026, repete o ritual pela 11ª Copa consecutiva.
Uma tradição que começou em 1982
Conhecido pelos vizinhos como Seu Leônio, ele transforma pincéis e tinta em demonstrações de carinho pela Seleção. Mesmo sem poder mais se abaixar para pintar o chão ou ajudar na instalação das bandeirinhas, Seu Leônio continua responsável pelos postes da Rua Augusto Mariani. Neste ano, optou por um desenho padronizado em todos eles, mantendo viva uma tradição iniciada na Copa de 1982.
“O que está difícil é pintar a sexta estrela. Todo mundo quer ganhar, mas não tem como. Se perder também, na próxima Copa vamos estar aqui, pintando, decorando, enfeitando, do mesmo jeito”, afirmou.
Da ideia à mobilização comunitária
Natural de Maceió (AL), Leônio morou em Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro antes de se estabelecer em Juiz de Fora, onde trabalhou com arte em vidro. Foi na cidade mineira que começou a decorar as ruas durante os Mundiais. Segundo ele, a ideia surgiu quando a instalação de postes pela concessionária de energia mudou a paisagem do bairro. “Quando eu cheguei aqui, as ruas não tinham postes. Depois que eles foram colocados, comecei a pintar os postes e os meios-fios. Aí a galera animou também e me acompanhou. Eu puxei o movimento”, relembrou.
O filho, Fabiano Galvão, conta que a primeira grande mobilização aconteceu justamente em 1982, embalada pelo entusiasmo com a Seleção de Zico, Sócrates e Falcão. “Foi o ano em que as pessoas mais enfeitaram as ruas. Meu pai tomou a frente de tudo. Pintamos a rua inteira, e os postes ficaram por conta dele. Foi ali que essa tradição começou.”
Memórias de todas as Copas campeãs
Nascido em 1930, Seu Leônio viu o Brasil conquistar os cinco títulos mundiais, mas também presenciou algumas das maiores frustrações da Seleção. A lembrança mais marcante é a final da Copa de 1950, quando esteve no Maracanã e viu o Uruguai vencer por 2 a 1 diante de quase 200 mil torcedores. “Foi uma tristeza enorme. Todo mundo chorando, sem saber para onde ia. Quando me perguntam o que foi pior, se a Copa de 1950 ou o 7 a 1 para a Alemanha, não tenho dúvidas: a de 1950 machucou muito mais.”
Apesar das decepções, ele diz que a paixão pela Seleção nunca diminuiu. Pelo contrário.
Enchentes não desanimam moradores
Neste ano, a decoração da rua ganhou um significado ainda mais especial. O Bairro Industrial foi um dos mais afetados pelas enchentes que atingiram Juiz de Fora no fim de fevereiro de 2026, mas, segundo Seu Leônio, os moradores fizeram questão de manter a tradição. “O pessoal está animado. É bonito ver essa união. Depois de tanta tristeza, ninguém desanimou.”
Agora, ele já faz planos para o próximo Mundial. Em 2030, quando espera voltar a pintar a rua, Seu Leônio terá 100 anos. “O maior orgulho é ver essa alegria dele. Meu pai nunca foi fanático por clube, mas sempre teve um amor enorme pela Seleção Brasileira e acredita que ela pode ser campeã”, afirmou o filho, Fabiano.



