Nas andanças pelo menor município paulista, Borá, com menos de mil habitantes e área inferior ao Parque Ibirapuera, o narrador revisita o avô Pergentino Castelo, 80 anos, que vive só num sítio com galinhas, cachorros e ferramentas, plantando quiabos. As histórias de Pergentino ora pareciam verdade, ora pura fantasia; hoje o neto apenas escuta, situando-se entre o exagero e a afronta às leis da realidade.
O sonho do avô: final de Copa com Neymar sentado
Numa dessas visitas, Pergentino contou mais uma história extraordinária. Assim que o neto chegou, anunciou da varanda: "Meu neto, essa noite tive uma pesadelice que só estou aqui à força de chá de mulungu. O sonho era nos finalmentes das finais da Copa. O estádio relampejava de gente. As arquibancadas estavam tão cheias que até defunto antigo pediu licença ao cemitério para presenciar o combate."
Neymar, descrito como "príncipe dos dribles, conde das caneladas recebidas, marechal das redes sociais", estava sentado no banco de reservas — não de qualquer maneira, mas "um sentar de primeira grandeza". Enquanto os outros onze corriam em alvoroço, Neymar permanecia quieto, "como santo de procissão em dia de pouco milagre", apenas observando. O jogo caminhava para um desfecho que "faz um homem envelhecer duas dentaduras numa tarde".
O lance improvável: bola na cabeça e gol
Foi então que "assucedeu-se o sucedido". O goleiro adversário, "sujeito de grandes envergaduras e pequena sorte", apanhou a bola e resolveu despachá-la para a intermediária. Armou a pernada, bombeou o couro e o esférico saiu atravessando o estádio "como um buscapé de rabo quente". Mas o destino tinha outra minuta: a bola, em vez de procurar seus jogadores, foi encontrar justamente o cocuruto de Neymar, que seguia assentado.
A redonda colidiu com aquele alto de cabeça e "deu um estrondo de melancia madura". Abalroou e voltou. "Avoou com tamanha inspiração geométrica que varou o gramado inteiro, descreveu uma curva de cometa, e foi cair nos de cima do arqueiro que a havia chutado." Gol de banco de reservas!
Repercussão e contestação
Por um tempo, ninguém assuntou nada. O juiz pulou no VAR "feito uma onça de comer gente". O VAR ficou em silêncio administrativo. Mas os jurídicos da FIFA logo confirmaram o fato consumado. "O gol era juramentado." Naquele instante, Neymar deixou de ser apenas futeboleiro. "Foi cocurutizado pela História. Sua moleira adquiriu jurisdição internacional." Houve quem recolhesse fotografias do lance para rezar diante delas. Um vereador propôs transformar o banco de reservas do Brasil em patrimônio da humanidade. Quando veio o assopro derradeiro, o Brasil era campeão do mundo. "Sem chute. Sem drible. De quengo."
Em após se deram as medalhas, as discurseiras e os lacrimejamentos regulamentares. Neymar recebeu as comendas serenado, "como os atletas que trabalham sentados e mesmo assim entregam o serviço". Alguns contestaram a façanha. O neto, não. Embora confesse que, no momento do gol, se ergueu da cama para fazer a chuva escorrer pelo ralo da bexiga. Mas, durante o sonho, quase todo, acompanhou a peleja de perto. "Como manda o figurino."



