O show "Malu Rodrigues e banda do Tremendão tocam Erasmo Carlos", apresentado no Manouche, no Rio de Janeiro, na noite de 2 de julho, foi um tributo antecipado aos 85 anos que o Gigante Gentil completaria em 5 de junho. A obra de Erasmo Carlos (1941-2022), pedra fundamental do rock brasileiro nos anos 1960, é vasta e diversa, transitando do rock da Jovem Guarda ao samba-rock, soul, funk e canções de amor, até o derradeiro álbum O futuro pertence à... Jovem Guarda (2022).
Banda de músicos que tocaram com Erasmo
Do ponto de vista instrumental, o show foi excelente. A banda que dividiu o palco com Malu Rodrigues era formada por Luiz Lopez (guitarra), Rike Frainer (bateria), Mario Vitor (guitarra) e Pedro Herzog (baixo), todos músicos que tocaram com Erasmo Carlos. Lopez e Frainer dividiram palcos e estúdios com o cantor por mais de 10 anos; Vitor e Herzog tocaram com o Tremendão em várias ocasiões. O maestro e tecladista José Lourenço, habituado a tocar com Erasmo, fez participação luxuosa, traduzindo nos teclados o clima de "É preciso dar um jeito, meu amigo" (1971) e brilhando em "É preciso saber viver" (1968), no bis.
Participação de Leo Jaime
O bis contou com a presença do convidado Leo Jaime, discípulo de Erasmo, que cantou em dueto com Malu Rodrigues "Gatinha manhosa" (1965) e "Sou uma criança, não entendo nada" (1974, única parceria de Erasmo com Ghiaroni). Leo Jaime justificou o aval do mestre, mas, apesar das participações especiais, o show raramente ultrapassou a fronteira do cover.
Atuação de Malu Rodrigues
Cantora e atriz projetada em musicais de teatro, Malu Rodrigues confirmou afinação e boa técnica vocal, mas não imprimiu suas próprias digitais de intérprete no cancioneiro de Erasmo Carlos, quase todo composto em parceria com Roberto Carlos. A ausência de personalidade vocal mais delineada ficou evidente já nos três rocks de abertura – "Minha fama de mau" (1964), "Vem quente que estou fervendo" (Eduardo Araújo e Carlos Imperial, 1967) e "Quero que vá tudo pro inferno" (1965) – que não tiveram o fogo que incendiava Erasmo. Da mesma forma, Malu deixou escapar a melancolia de "Devolva-me" (Lilian Knapp e Renato Barros, 1966). Em contrapartida, acertou o tom delicado e interiorizado de "Mais um na multidão" (2001), parceria de Erasmo com Carlinhos Brown e Marisa Monte.
Solos vocais dos músicos
Os bons solos vocais dos músicos corroboraram a sensação de cover. O baixista Pedro Herzog cantou "Minha superstar" (1981); o baterista Rike Frainer cantou "Gente aberta" (1971); o guitarrista Mario Vitor fez solo vocal em "Mulher (Sexo frágil)" (1981) e dueto com Malu em "Sentado à beira do caminho" (1969). O guitarrista Luiz Lopez apresentou tema de lavra própria, "Erasmo" (2022), composto sob o impacto da morte do artista. A grande surpresa do roteiro foi "Dois animais na selva suja da rua" (1971), rock politizado de Taiguara.
Força da obra de Erasmo
Acima de qualquer interpretação, sobressaiu a força perene da obra de Erasmo Carlos, dono de um cancioneiro gigante e, ao contrário da falsa fama de mau, quase sempre amoroso e gentil. O show durou duas horas e teve cotação de três estrelas.



