Uma perereca-de-capacete-de-manchas-negras (Trachycephalus nigromaculatus) resistiu a um ataque de uma cobra-d'água (Erythrolamprus miliaris) em uma área de brejo em Macaé, no Rio de Janeiro, e conseguiu escapar com vida. O flagrante foi registrado pelo herpetólogo Henrique Nogueira durante trabalho de campo e publicado em 27 de janeiro.
A cena ocorreu em um período de chuvas intensas, quando dezenas de pererecas se concentravam para um evento de reprodução explosiva. O confronto durou cerca de 10 minutos. Apesar de ter escapado, a perereca apresentou lesões superficiais na pele, compatíveis com cortes da mordida, mas sem ferimentos profundos.
Dois fatores principais explicam a sobrevivência do anfíbio. O primeiro é mecânico: a perereca possui um crânio ossificado que funciona como uma armadura, dificultando a manipulação pelo predador. O segundo é químico: ela libera pela pele uma secreção rica em proteínas e peptídeos com efeitos citotóxicos e irritantes para mucosas.
Ao morder a cabeça da perereca, a cobra entrou em contato com a substância e reagiu imediatamente, soltando a presa e balançando a cabeça com a boca aberta, sinal de irritação intensa. Segundo Henrique, a secreção pode causar ardência nos olhos, náuseas e vômitos em humanos, e a espécie não deve ser manipulada sem luvas e autorização ambiental.
Esta é a primeira vez que a interação entre essas duas espécies é documentada em vídeo. Para o pesquisador, o registro amplia o conhecimento sobre as estratégias de defesa dos anfíbios, embora o evento não seja necessariamente raro, mas dependente de observação no local e momento certos.



