No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado neste domingo (28), a comunidade reafirma sua luta por respeito, igualdade e liberdade de expressão. Além das pautas políticas, a diversidade linguística é uma marca registrada: gírias como carão, babado, odara, gag e cunt fazem parte do vocabulário popular, mas seus significados podem variar conforme o contexto.
O que significam as gírias?
O g1 reuniu as expressões mais comuns entre a comunidade LGBTQIAPN+ e explicou seus usos. Carão pode indicar algo impressionante ou uma crítica; babado refere-se a fofoca ou situação polêmica; odara significa algo legal ou bonito; gag expressa surpresa ou admiração; e cunt (do inglês, vagina) é ressignificado como elogio a uma atitude ousada.
Linguagem como pertencimento
O professor doutor Leonardo Lemos de Souza, da Unesp de São José do Rio Preto, explica que as gírias fortalecem a identidade do grupo. “Elas produzem reconhecimento, cumplicidade e pertencimento. Funcionam como marcas de identificação, humor, afeto, ironia, proteção e crítica social”, afirma. No entanto, ele ressalta que “esse pertencimento nunca é universal. Uma palavra que aproxima certas pessoas pode afastar outras, sobretudo quando carrega memórias de violência ou exclusão”.
Origem no pajubá
As gírias têm raízes no bajubá ou pajubá, linguagem criada por travestis nas ruas, com influência de termos de religiões de matriz africana. A professora Larissa Pelúcio, também da Unesp, destaca: “Foi uma linguagem de resistência, proteção e comunicação cifrada em contextos de violência. Hoje, muitos termos circulam em novelas, programas de TV e redes sociais, mas a linguagem se reinventa”.
Diferenças geracionais e ressignificação
Larissa aponta que nem todos os membros da comunidade se reconhecem nos mesmos vocábulos. “Palavras criadas em contextos de dor e vulnerabilidade podem ser esvaziadas quando usadas por quem desconhece sua história. Há diferenças geracionais: o que para jovens é empoderador, para pessoas mais velhas pode remeter a ofensas sofridas”, diz.
Termos como bicha poc e pão com ovo exemplificam essa ambiguidade. “Bicha poc pode remeter a um estilo mais afetado, frequentemente associado a formas feminilizadas de expressão de gênero em homens gays”, explica o professor Leonardo. Já sapatão, historicamente pejorativo, foi ressignificado por muitas mulheres como afirmação política, mas não é aceito por todas.
Contexto e poder na linguagem
Os especialistas concordam que a linguagem não está fora das relações de poder. “Gírias sempre podem ser preconceituosas, inclusive entre pessoas marginalizadas. Elas reproduzem hierarquias de gênero, sexualidade, raça, classe, território, corpo e geração”, alerta Leonardo. “Um termo pode ser afeto dentro de um grupo e agressão quando vem de fora. Ressignificar é importante, mas não obriga que todos se reconheçam naquela palavra”, finaliza.



