O Brasil insiste em ignorar uma relação consagrada pela literatura econômica: mercados financeiros maduros e economias desenvolvidas não são coincidência, mas causalidade. O economista americano Ross Levine demonstrou empiricamente que países com sistemas financeiros mais desenvolvidos apresentam crescimento econômico consistentemente mais acelerado. A lógica é direta: um mercado de capitais e de crédito eficiente aloca recursos de quem poupa para quem investe, reduz o custo de capital, financia inovação e sustenta o empreendedorismo.
Concentração bancária no Brasil atinge níveis críticos
Segundo o Banco Central, os quatro maiores bancos brasileiros – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal – responderam por 57,9% de todas as operações de crédito do país ao final de 2024. No mercado de distribuição de produtos de investimento ao varejo, essa concentração sobe para 60%. São quatro instituições determinando o custo, o prazo e a disponibilidade do crédito em uma nação de 213 milhões de brasileiros espalhados por um território maior que a Europa continental.
O problema não é apenas quantitativo, é geográfico. Pesquisa do Ipea evidenciou ampla distorção na alocação dos recursos de crédito federal entre as regiões do país. O interior fica à margem não por falta de potencial produtivo, mas por dificuldade de acesso ao sistema que financia esse potencial. Estudos sobre o desenvolvimento bancário regional confirmam o padrão: onde há concorrência bancária reduzida, há menos crédito disponível, spreads maiores e prazos menores.
Descentralização como alavanca de crescimento
A descentralização do mercado financeiro se apresenta como uma alavanca de crescimento agregado. Quando o crédito chega a regiões antes negligenciadas, ele financia pequenas e médias empresas que empregam localmente, estimula a formalização de negócios, amplia a arrecadação municipal e reduz a dependência de transferências federais.
O movimento já esboça sinais positivos no Brasil. As cooperativas de crédito elevaram sua participação nas operações de crédito de 6,3% em 2022 para 7,2% em 2024. As fintechs e instituições não bancárias ganharam espaço nos segmentos de cartão de crédito e crédito sem consignação. O open banking criou condições regulatórias para que novos players disputem clientes que os grandes bancos nunca serviram adequadamente.
Comparação com os Estados Unidos revela contraste
O sistema bancário americano opera com uma diversidade que o brasileiro desconhece. O país tem mais de 4,4 mil bancos comerciais e instituições de poupança registradas na FDIC. Os quatro maiores – JPMorgan Chase, Bank of America, Citigroup e Wells Fargo – detêm cerca de 40% dos ativos totais do setor. É uma concentração relevante, mas que convive com centenas de bancos regionais e comunitários que financiam o tecido econômico local: a pequena indústria do Tennessee, o agricultor familiar do Kansas, a startup de tecnologia do Texas.
Esses bancos regionais conhecem seus mercados. Têm relacionamento de longo prazo com empresas locais, compreendem os ciclos econômicos específicos de cada região e assumem riscos que os grandes conglomerados nacionais não avaliam com a devida profundidade. Um banco enraizado no interior do Mississippi processa informações sobre seus tomadores de crédito que outra instituição centralizada em Nova York jamais capturaria.
Brasil carece de ecossistema bancário intermediário
No Brasil, esse ecossistema intermediário praticamente não existe. O Banrisul, no Rio Grande do Sul, e o Banestes, no Espírito Santo, são exceções que confirmam a regra. O que sobrou de presença regional ficou nas cooperativas de crédito, mas ainda limitadas em escala e em acesso ao mercado de capitais. O resultado é previsível: o empreendedor afastado do Sudeste tem opções infinitamente mais restritas do que seu equivalente em Columbus, Ohio.
Potencial represado e caminhos para o futuro
O Brasil vive um momento de recomposição econômica regional. O agronegócio do Centro-Oeste e do Paraná, a indústria do Sul e o potencial subexplorado do Norte e Nordeste configuram uma oportunidade real de crescimento descentralizado. O problema é que crescimento precisa de financiamento. E financiamento, no Brasil, ainda passa obrigatoriamente por São Paulo.
Enquanto não resolvermos essa equação, com quatro bancos controlando mais da metade do crédito nacional, e ignorarmos o potencial de um sistema financeiro regionalmente distribuído, o país continuará crescendo abaixo do que deveria. Não por falta de recursos naturais, não por falta de mão de obra, não por falta de empreendedores; e sim por falta de um mercado financeiro à altura do Brasil que temos a possibilidade de ser.



