Programa de reciclagem Mãos para o Futuro busca ampliar atuação e enfrentar desafios
Reciclagem: Mãos para o Futuro busca ampliar atuação

A Cooperativa Crescer, na Lapa, zona oeste de São Paulo, recebe entre 10 e 15 toneladas de material reciclável por dia, produzindo uma média de 15 fardos separados para serem comercializados. Ela atende a região noroeste da capital, recebendo materiais de grandes geradores – o que inclui condomínios, empresas e o Instituto Butantan – da coleta privada e da coleta seletiva pública, vindos de bairros como Lapa, Freguesia do Ó, Pirituba e Parque São Domingos. Segundo o presidente da cooperativa, Jair do Amaral, aproximadamente 65% do material pode ganhar uma nova vida e o restante é rejeito: não chega em condições de ser aproveitado ou não tem reciclabilidade (valor no mercado de reciclagem).

O que é o Mãos para o Futuro

A cooperativa é uma das 230 em várias partes do País que recebem créditos do Mãos para o Futuro, programa de logística reversa reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente como um dos maiores nacionalmente, que completa vinte anos em 2026. A logística reversa é o caminho de volta que um produto faz depois de ser usado. O lixo pode ser reciclado ou reaproveitado. Em alguns casos, é possível até usar esse material na mesma cadeia produtiva da qual ele fez parte originalmente.

Hoje, o Mãos para o Futuro busca ampliar os setores produtivos participantes e tenta enfrentar desafios como a informalidade na cadeia e a baixa adesão à separação correta dos resíduos, com investimentos estruturantes e em educação ambiental.

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Resultados e metas

Em 2025, o programa afirma ter ajudado a recuperar 215 toneladas de embalagens, cerca de um terço do que é colocado no mercado pelos setores que aderem à iniciativa. No total, a estimativa é de que 1,5 milhão de toneladas já tenham sido reaproveitadas. Hoje, 226 empresas participam do Mãos para o Futuro, nas indústrias de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, fabricantes de tintas, higiene, limpeza e saneantes, óptica e biscoitos, massas alimentícias, pães e bolos.

“Não é um projeto de reciclagem, é um negócio que transforma, que gera valor para todo mundo”, afirma Luiz Dutra, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), entidade que criou o programa há duas décadas.

Como funciona o programa

Sem fins lucrativos, o Mãos para o Futuro remunera as cooperativas por produtividade, ou seja, por tonelada de material vendido para as recicladoras. Atualmente, paga R$ 0,16 por quilo de plástico, R$ 0,13 por quilo de vidro e R$ 0,09 por quilo de papel e metal. Esses valores, segundo a Cooperativa Crescer, estão significativamente acima do que é pago no mercado de créditos de reciclagem. No caso da cooperativa, onde a produção total vendável fica entre 150 e 200 toneladas por mês, ela chega a receber entre R$ 12 mil e R$ 15 mil mensais apenas de créditos, fora a venda dos materiais.

Os créditos de reciclagem são comprados pelas empresas, que precisam cumprir metas de reciclagem de acordo com o tamanho e o tipo de operação do setor.

Créditos estruturantes

O foco do Mãos para o Futuro são os certificados de estruturação, uma modalidade do crédito de reciclagem voltada a ações estruturantes para aumentar a capacidade e o desenvolvimento da cadeia. O crédito de reciclagem comum funciona apenas pela compra de notas fiscais, referente à reciclagem já realizada. Já o crédito estruturante financia projetos de médio e longo prazo para estruturar a rede de catadores e gera um benefício maior para essa cadeia. Embora fundamental para o meio ambiente, esse setor ainda tem pouco incentivo e tenta superar a informalidade.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, entre as 15 entidades gestoras autorizadas pelo órgão a atuar na logística reversa, cerca de metade atua com créditos estruturantes. Há cooperativas já estruturadas, que preferem ter o pagamento pelo resultado, mas cerca de duas mil no País ainda precisam de estruturação.

“É mais difícil porque exige trabalhar nas bases, até na regularização, serviços básicos, na estrutura básica da cooperativa. É mais demorado e mais difícil. Entidades mais antigas, como a Abihpec, vêm fazendo isso há mais tempo e têm melhores resultados nesse contexto”, diz o diretor do Departamento de Gestão de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente, Eduardo Rocha Dias dos Santos.

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“O ‘core’ (foco) do programa é ambiental, mas o fato de ser estruturante traz o impacto social junto. Essa combinação é inequívoca, é o grande diferencial, é o fato humano no cerne”, afirma Dutra. Para integrar o programa, cooperativas precisam atender a uma série de requisitos, como a conformidade legal e técnica com licenças, segurança do trabalho e auditorias, o que também as qualifica para atender gigantes da indústria, como Alpargatas, Unilever e Natura.

Impacto na Cooperativa Crescer

O investimento do Mãos para o Futuro tem feito a diferença na Cooperativa Crescer, diz Amaral. Nos últimos cinco anos, desde que começou a receber os repasses trimestrais do programa, a Crescer passou a ter um caixa para comprar equipamentos mais modernos e garantir estabilidade aos cooperados, além de aumentar sua renda. “Compramos essa prensa com esse recurso, não saiu um centavo do bolso de cooperado”, diz o presidente da Crescer, dando como exemplo uma grande prensa enfardadeira, usada na compactação dos materiais triados. “O Mãos para o Futuro é parceiro nosso em outros projetos, como o educacional. Extrapola a questão comercial”.

Com o apoio do Mãos para o Futuro, a Crescer integra ainda o projeto Ser Mais, Ser Juntos, iniciativa socioeducacional da Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem. O projeto, que caminha para a terceira edição com mais de 100 formados, oferece suporte para que cooperados concluam o ensino fundamental e médio, além de incentivar a formação técnica e superior em parceria com instituições como o Sesi. O programa tem ainda um braço de educação ambiental, com visitas de escolas a cooperativas e oficinas para orientar sobre a separação correta de embalagens pós-consumo.

Obrigação legal das empresas

A legislação brasileira determina a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, obrigando empresas que fabricam, importam, distribuem ou comercializam produtos em embalagens a estruturar e operacionalizar sistemas de logística reversa. Para cumprir a lei, empresas têm a opção de criar um programa próprio, comprar créditos de reciclagem ou aderir a um programa existente, como o Mãos para o Futuro. “Várias empresas fazem (logística reversa) com fins lucrativos, o que é legítimo. Mas o programa conseguiu criar essa escala e está construindo aderência porque outros setores viram na gente um crédito muito grande para se juntar espontaneamente”, afirma Luiz Dutra, presidente da Abihpec.

O programa tem abrangência nacional e está em 150 municípios com mais de 6,5 mil parceiros catadores, que passam a ter renda média em torno de R$ 2.250, acima do salário mínimo. No total, o programa estima gerar uma receita anual de R$ 176 milhões para as cooperativas.

Desafios e perspectivas

Embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos tenha sido sancionada em 2010, mais de uma década passou sem que houvesse metas práticas para a maioria dos setores. O avanço na definição dessas metas por material e na criação de ferramentas de fiscalização digital só ganhou maior força recentemente, com decretos como o do vidro (2022), de créditos de reciclagem (2023) e do plástico (2025). Para especialistas e atores envolvidos na cadeia, ainda falta maior investimento para profissionalizar as cooperativas e melhorar o nível de renda de catadores, e em educação ambiental, para que haja segregação na fonte – separação do resíduo comum em casa, nos comércios e empresas, para que os materiais possam ser reaproveitados.

No geral, dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) e Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostram que a taxa geral de reciclagem de resíduos sólidos urbanos no País ainda patina em níveis historicamente baixos, estimados entre 3% e 4%.

Para superar esse patamar, especialistas defendem que a reciclagem manual das cooperativas deve ser integrada a um “cardápio de soluções” que inclui mecanização e novas tecnologias para dar conta do volume colossal de resíduos urbanos. A transformação definitiva da cadeia depende de o poder público e as empresas passarem a enxergar as cooperativas e os catadores como parceiros estratégicos. Somente com essa valorização é possível garantir que a logística reversa cumpra seu papel de regenerar tanto o meio ambiente quanto as vidas que a sustentam.

Um dos instrumentos federais criados recentemente com essa finalidade é a Lei de Incentivo à Reciclagem, que concede dedução no imposto para pessoas físicas e jurídicas que fomentem a cadeia de reciclagem. “Tenho a impressão que todo mundo gostaria de ajudar e, se tivesse a informação mais disseminada, teria mais captação”, diz Eduardo Rocha Dias dos Santos, do Ministério do Meio Ambiente.

Para ele, seria interessante um ajuste tributário para estimular o uso de material reciclado pela indústria, permitindo que os materiais retornem com qualidade, frequência e preço, sem onerar seu negócio. Em campanha comemorativa aos seus 20 anos, o Mãos para o Futuro busca incorporar novos setores e empresas para expandir sua atuação. “Se as empresas conseguem reutilizar material na embalagem, têm um ganho importante na sua escala e produtividade. Então, desenvolver esse mercado é bom pra indústria”, enfatiza Dutra. “Tem a obrigação, tem a questão de reputação, ambiental e social, mas também é business”.