O risco de um Super El Niño – versão mais severa do fenômeno meteorológico – ameaça retardar a recuperação do já combalido crédito ao agronegócio brasileiro. Meteorologistas alertam para chuvas excessivas no Sul e secas intensas no Norte e Nordeste, dinâmica que pode comprimir as margens dos produtores rurais e dificultar o pagamento de dívidas na safra 2026/2027.
Probabilidade de 63% de Super El Niño
Em relatório na semana passada, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a chegada do El Niño e projetou 63% de chance de que sua intensidade se torne “muito forte”, caracterizando o chamado “Super El Niño”. O fenômeno tende a agravar a “tempestade perfeita” que se instalou sobre a produção agrícola desde o ano passado, com juros restritivos, endividamento elevado e eventos climáticos extremos.
Em abril de 2026, a inadimplência na carteira de recursos direcionados ao segmento rural saltou para 7,4%, um avanço de 4,2 pontos percentuais em relação a igual mês de 2025, segundo dados mais recentes do Banco Central. Paralelamente, a guerra no Irã e o vaivém nos preços das commodities impuseram novas dúvidas sobre o ritmo de cortes dos juros básicos. Na última quarta-feira, o Banco Central cortou a Selic pela terceira vez consecutiva, para 14,25%, mas a curva de juros futuros já sugere que uma pausa no ciclo de relaxamento monetário é iminente.
Impacto nos bancos e no crédito rural
“Em um ano que já é de incertezas, o El Niño entra no jogo adicionando uma camada extra de dificuldades”, afirma o diretor associado da equipe de instituições financeiras da S&P Global Ratings, Henrique Sznirer. Com a produtividade em alta, analistas ainda veem cenário favorável para a safra das principais culturas brasileiras, como soja, milho, açúcar e café. O problema é que a recente queda nos preços das commodities pode apertar as margens, principalmente se o El Niño levar a uma quebra na safra.
“É aí que pode entrar o impacto para os bancos: o produtor, que já está endividado com juros altos, vai ter que pagar um empréstimo e pode não ter um contraponto da geração de caixa”, diz a também diretora na S&P, Flávia Bedran.
Para analistas da Genial Investimentos, um novo choque climático pode deteriorar a qualidade de crédito rural no sistema financeiro. Em um quadro de consequências mais fortes, os bancos podem ser obrigados a elevar provisões, intensificar renegociações e alongar prazos. O resultado potencial seria uma pressão sobre o capital regulatório e revisões negativas nos lucros. Banco do Brasil, Banco ABC e Banrisul são citadas como as instituições mais sensíveis a esse cenário.
Bancos já incorporam piora nos modelos
Os eventuais efeitos só devem começar a aparecer no balanço mais para o fim do ano, mas os bancos já incorporaram aos modelos uma piora no cenário. Em um recente boletim econômico sobre o agronegócio, o Banco do Brasil chamou atenção para a “elevada probabilidade” de um El Niño de forte intensidade entre o final de 2026 e o começo de 2027. Assim, o banco agora prevê uma contração de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária este ano.
Maior financiador do agro brasileiro, com uma carteira de R$ 418 milhões, o BB também é a mais vulnerável das instituições financeiras às consequências indiretas do El Niño. Em março, a inadimplência no portfólio rural do banco subiu a 6,22%, pelo critério de atrasos superiores a 90 dias. Com isso, o BB precisou reforçar as provisões líquidas contra devedores duvidosos (PDD) em 86% no comparativo anual do primeiro trimestre, para R$ 18,9 bilhões.
No começo do ano, a gestão do BB vinha projetando uma virada do ciclo para o segundo semestre, após renegociar quase R$ 40 bilhões em dívida no âmbito do programa Regulariza Agro. As novas operações preveem mecanismos de aumento da robustez das garantias, principalmente em alienação fiduciária – mecanismo em que um bem fica legalmente em nome do credor até que a dívida seja totalmente paga. No entanto, com a guerra no Oriente Médio e agora o El Niño, o cronograma da retomada pode alongar-se.
Culturas mais afetadas e recomendações
O analista Nícolas Merola, da casa de análises EQI Research, explica que as culturas mais afetadas devem ser milho e soja, justamente as que concentram os maiores pesos na carteira do BB. Como o fenômeno ainda era incerto na época da divulgação do resultado do primeiro trimestre, o banco público deve ter que reavaliar suas projeções para o ano para refletir o novo evento climático, afirma Merola.
O analista ainda mantém uma recomendação neutra para a ação do BB, mas reconhece que as incertezas estão ficando mais fortes. “Agora, com a probabilidade do aumento dos impactos do El Niño, esse pessimismo começa a crescer”, ressalta.
Entre as demais instituições que têm exposição menor no agro, mas ainda assim relevante, o impacto do evento climático é ainda mais difícil de prever. Esses bancos, em geral, costumam emprestar para grandes empresas, que têm mais acesso a recursos no mercado financeiro e uma melhor gestão de risco. “Existem as condições para que essas empresas saiam [do El Niño] mais incólumes e, por consequência, o impacto para estas outras instituições seriam marginais”, diz Merola.



