A americana TransCore, principal fornecedora de tecnologia para pedágios eletrônicos nos Estados Unidos, quer trazer ao Brasil uma nova geração de soluções para o sistema de free flow. Em parceria com a brasileira Pumatronix, a empresa aposta não apenas na expansão da cobrança sem cancelas, mas também em novas aplicações para os dados gerados pelos veículos que circulam nas rodovias.
O movimento ocorre em um momento em que o modelo avança no País, mas ainda sem orientações específicas da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) sobre o uso dessas informações.
Representantes das duas empresas estão no Brasil para participar da Bienal das Rodovias 2026, realizada nos dias 17 e 18 de junho no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília. Organizado pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), o principal fórum de concessões do País reúne governo, reguladores, concessionárias e especialistas sob o tema “A Força da Regulação Brasileira”.
Como funciona o free flow
Atualmente, o free flow opera em 13 concessões brasileiras, com quase 70 pórticos ativos e aproximadamente 5 mil quilômetros de rodovias nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Rondônia. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Pagamento Automático para Mobilidade (Abepam), cerca de 15 milhões de veículos já utilizam tags eletrônicas no País, número que pode chegar a 30 milhões até 2028.
“Queremos usar os dados, mas a LGPD nos limita”, enfatiza Sylvio Calixto, CEO da Pumatronix, em conversa com a reportagem. A declaração resume uma discussão que começa a ganhar espaço no mercado de concessões rodoviárias: quais usos poderão ser feitos dos dados gerados pelos sistemas de pedágio sem cancela e quais limites serão impostos pela legislação de proteção de dados.
O que já existe
O free flow permite a cobrança automática de pedágio por meio de câmeras, sensores e leitores instalados em pórticos sobre as rodovias. Sem praças físicas ou cancelas, o sistema registra a passagem dos veículos e realiza a cobrança posteriormente.
A expansão do modelo, porém, tem sido acompanhada por desafios regulatórios. Recentemente, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) suspendeu cerca de 3,4 milhões de multas relacionadas ao sistema e estabeleceu prazo até 16 de novembro para regularização dos débitos. As concessionárias também receberam 100 dias para concluir a integração dos sistemas com a Carteira Digital de Trânsito.
Novas tecnologias
A TransCore participou da transição do modelo convencional de pedágio para o free flow em diversos estados americanos. Segundo Rodrigo DePaula, vice-presidente de operações da empresa, a experiência mostra ganhos significativos em segurança e fluidez. “Os números são surpreendentes. Redução de acidente em quase 80%”, afirma ao comentar a conversão de rodovias da Flórida para o modelo sem cancelas.
A parceria com a Pumatronix foi estruturada em três camadas. A TransCore será responsável pela captura de dados nos pórticos. A Pumatronix atuará na validação das informações coletadas e na consolidação financeira das cobranças, etapa que será realizada por meio da Movia, fintech comprada pelo grupo.
Uma das principais apostas da parceria é a substituição das tradicionais tags eletrônicas pelo smartphone.
Smartphone como substituto da tag
O sistema desenvolvido pela TransCore utiliza o celular do motorista como identificador para o pagamento automático do pedágio. Segundo a empresa, o usuário precisará baixar um aplicativo e autorizar o compartilhamento de localização para que o sistema reconheça a aproximação do veículo aos pórticos. A proposta busca reduzir custos de emissão e distribuição das tags e ampliar a adesão de usuários que hoje não utilizam meios automáticos de pagamento.
A tecnologia já está em fase de testes nos Estados Unidos e deverá ser submetida à homologação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) ainda neste ano.
Para caminhoneiros autônomos, segmento que historicamente apresenta baixa adesão às tags, a empresa acredita que o modelo pode facilitar o acesso ao sistema.
A cobrança continuará podendo ser feita por leitura de placa, mas o smartphone funcionaria como uma segunda camada de validação, reduzindo fraudes e aumentando a precisão das cobranças.
O movimento ocorre poucos meses após a ANTT homologar a Roadcard como a primeira operadora autorizada a realizar pagamentos de vale-pedágio por leitura de placas, sem utilização de tags. Na ocasião, a agência argumentou que a rastreabilidade dos registros de passagem facilitaria a fiscalização do sistema.
Caminhão vazio que paga como carregado
Outra frente da parceria está relacionada à classificação automática dos veículos. Atualmente, concessionárias ainda enfrentam situações em que veículos são enquadrados em categorias incorretas, gerando cobranças indevidas.
Segundo os executivos, a solução da TransCore combina sensores de vídeo, inteligência artificial e tecnologia lidar para identificar características físicas dos veículos, quantidade de eixos, altura, volume e até a presença de veículos trafegando muito próximos uns dos outros.
O sistema também consegue identificar eixos suspensos em caminhões, informação que pode ser cruzada com manifestos eletrônicos de carga para auxiliar processos de fiscalização.
Além disso, a Pumatronix já opera sistemas de pesagem em movimento por meio da Enradar, empresa do grupo responsável pela balança HS Win, homologada recentemente e em operação no Rodoanel Norte de São Paulo.
Dados e o interesse comercial do setor
O free flow é, por natureza, um sistema de coleta de dados de mobilidade. Cada passagem por um pórtico gera registros que incluem placa, horário, localização e características do veículo. Quando essas informações são associadas aos sistemas de cobrança, passam a integrar uma base de dados que desperta interesse de diferentes segmentos do mercado.
Durante reunião com a reportagem, Calixto afirmou que as empresas enxergam potencial econômico nessas informações. “Respeitando a LGPD, a gente gostaria de usar os dados. Então eu posso, por exemplo, fornecer dados para uma seguradora, um banco”, disse. Na mesma conversa, porém, o executivo citou aplicações estatísticas como exemplo de uso possível, destacando o respeito à privacidade.
As declarações indicam que o mercado já avalia oportunidades que vão além da simples cobrança de pedágio. Informações sobre fluxo de veículos, frequência de deslocamentos, velocidades médias e padrões logísticos podem ser utilizadas para estudos de tráfego, planejamento de infraestrutura, gestão de frotas e desenvolvimento de novos serviços.
O próprio executivo mencionou outros exemplos durante a conversa. “A marca de veículo que mais passa é da Fiat. Vou passar um outdoor que vale dinheiro.”
A questão central, porém, permanece em aberto: quais desses usos poderão ser realizados dentro dos limites estabelecidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e sob quais condições regulatórias.
Vazio regulatório
A discussão ocorre em um momento em que a ANPD ainda não publicou orientações específicas para concessões rodoviárias que utilizam sistemas de leitura automática de placas e monitoramento de fluxo.
Especialistas defendem uma harmonização entre a regulação setorial da ANTT e as regras da LGPD, especialmente em temas relacionados ao compartilhamento, armazenamento e utilização dos dados gerados pelos sistemas de cobrança eletrônica.
Ao mesmo tempo, a própria ANTT tem utilizado a rastreabilidade dos registros de passagem como ferramenta de fiscalização. A homologação da Roadcard para pagamento de vale-pedágio por leitura de placa foi justificada justamente pela capacidade de rastrear pagamentos e passagens dos veículos.
O resultado é um cenário em que os dados ganham valor crescente para empresas, concessionárias e órgãos públicos, enquanto os limites para sua utilização ainda não foram claramente definidos.
Regras que ainda faltam definir
A tecnologia avança rapidamente. As aplicações comerciais começam a surgir. O debate sobre o uso dos dados, porém, segue em construção.
A ANTT possui normas para cobrança, fiscalização e operação do free flow. A LGPD estabelece princípios gerais para o tratamento de dados pessoais. Mas ainda não existe uma orientação específica para o setor de concessões rodoviárias que esclareça quais informações podem ser compartilhadas, para quais finalidades e em quais condições.
Nesse cenário, empresas como Pumatronix e TransCore apostam em um mercado que combina eficiência operacional, redução de custos e novas possibilidades de negócio. Ao mesmo tempo, a expansão do free flow amplia o debate sobre privacidade, governança de dados e os limites da exploração econômica das informações geradas nas rodovias brasileiras.



