A decisão sobre o valor do CVaR (Custo Variável de Aversão a Risco), que estava na pauta da reunião do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) do dia 13 de maio, foi adiada para que houvesse tempo para estudos mais aprofundados, especialmente em função da homologação do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de 2026.
Essa postergação é considerada acertada por especialistas, uma vez que aspectos importantes sobre os impactos da manutenção dos parâmetros atuais não estavam sendo devidamente considerados. A decisão final, prevista para o fim de junho, definirá o rumo dos preços de energia em 2027 e pode representar uma economia bilionária para os consumidores.
O que está em jogo
O CVaR é um parâmetro técnico que orienta a operação do sistema elétrico, definindo o nível de aversão ao risco. Atualmente, o sistema opera com o par (15;40), considerado extremamente conservador. Isso força o uso de usinas térmicas mais caras mesmo quando há segurança energética suficiente, elevando os custos para o consumidor final.
O critério de segurança é dado pela Curva de Referência (CRef), que estabelece o nível mínimo prudencial de armazenamento dos reservatórios. A Faixa Segura situa-se entre 95% e 100% de atendimento à CRef. No ciclo anterior, o setor operava com critério de 90%, e o atendimento acima de 100% sequer era considerado.
Estudo aponta economia de R$ 5,4 bilhões
De acordo com análises técnicas, a adoção do par menos conservador (15;30) atende plenamente ao critério de segurança, mantendo-se dentro da banda de 95% a 100% e com armazenamento apenas 4,1% inferior ao limite da CRef ao fim do horizonte. O custo adicional de segurança (ESS) seria de apenas R$ 0,9 bilhão, significativamente menor que os R$ 6,3 bilhões do cenário atual.
A diferença para o consumidor é expressiva. A troca do (15;40) pelo (15;30) representaria:
- Redução de R$ 5,4 bilhões no custo de geração termelétrica;
- Redução tarifária de aproximadamente 1%;
- Redução superior a 0,11 ponto percentual no IPCA anual.
O IPCA é o índice que mede a inflação, e a energia elétrica é um de seus componentes mais sensíveis, pois encarece toda a cadeia produtiva. Quando a conta de luz sobe, o custo de produção de alimentos, transporte e serviços também aumenta, impactando diretamente o bolso do consumidor.
Impacto na inflação e na vida real
O incremento de 0,11 ponto percentual no IPCA pode parecer marginal, mas aplicado sobre os R$ 8,1 trilhões que as famílias brasileiras gastam por ano, representa cerca de R$ 9 bilhões retirados do bolso da população. Considerando o impacto sobre toda a economia, o valor chega a aproximadamente R$ 14 bilhões.
Para dar dimensão: esse montante é praticamente o mesmo que o país investe em saneamento básico em um ano (cerca de R$ 16 bilhões no orçamento de 2026). Ou seja, a sociedade arca, de forma silenciosa, com um custo equivalente ao esforço anual de levar água tratada e esgoto a milhões de brasileiros, sem ganhar um único megawatt a mais de segurança energética.
O papel do Leilão de Reserva de Capacidade
O LRCap de 2026 contratou cerca de 19 GW de capacidade, funcionando como um seguro de potência adicional. Esse montante foi contratado justamente para ser despachado quando o sistema precisar, reduzindo o risco de falta de energia.
Com 19 GW de geração disponível e contratada para garantir segurança, o risco de déficit diminui, e não aumenta. Manter os reservatórios artificialmente cheios por precaução deixou de fazer sentido técnico. Manter o (15;40) após a contratação do LRCap cria um custo de oportunidade real: o consumidor paga duas vezes — pela capacidade do LRCap que fica em espera e pelo excesso de despacho térmico que poderia ser evitado.
Consequências para investimentos e competitividade
Energia cara afugenta investimentos. Em um momento em que o mundo disputa a instalação de data centers — infraestrutura crítica da economia digital, intensiva em energia —, o Brasil corre o risco de perder esses projetos bilionários para países com energia mais competitiva. Grandes indústrias eletrointensivas, que empregam milhares de pessoas, também recalculam sua permanência ou expansão no país diante de um custo de energia inflado por decisão regulatória.
Enquanto economias maduras buscam tornar a energia mais barata e previsível para atrair investimentos, o Brasil caminharia na contramão, preservando um conservadorismo que beneficia um grupo específico de geradores e penaliza toda a cadeia produtiva. No fim, a conta recai sobre a indústria, que perde competitividade, o investidor, que escolhe outro destino, e o consumidor final, que paga mais caro pela mesma energia.
Conclusão
A decisão coloca o governo diante de uma escolha clara. De um lado, a modicidade tarifária, o controle da inflação e a atração de investimentos, com segurança energética comprovadamente preservada pela CRef e reforçada pelos 19 GW do LRCap. De outro, a manutenção de uma margem de segurança excessiva que, de forma silenciosa, custa bilhões de reais à sociedade — pressionando a conta de cerca de 90 milhões de consumidores cativos, espantando investimentos e elevando o IPCA.
A pergunta que fica é: o CMSE vai priorizar o bolso do brasileiro e a competitividade do país ou preservar um colchão de precaução que o novo desenho do sistema já tornou desnecessário?



