Você sabe o que são terras raras e por que despertam tanto interesse global? O controle sobre a cadeia de suprimentos de minerais críticos tornou-se uma questão estratégica para os Estados Unidos e outras potências. O Brasil, detentor da segunda maior reserva mineral de terras raras do mundo — grupo de minerais essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, smartphones e computadores —, produziu menos de 1% da demanda global em 2024, que somou cerca de 390 mil toneladas. Apesar da participação modesta, a projeção é que o país entre no hall dos principais fornecedores mundiais nos próximos anos.
Potencial brasileiro e gargalos
Segundo Rafaela Guedes, CEO da RG Impact, consultoria especializada em transição energética, com mais de 20 anos de experiência no setor de energia, incluindo 17 anos na Petrobras, o Brasil reúne vantagens únicas: abundância de recursos minerais, energia renovável, disponibilidade hídrica e posição diplomática neutra. No entanto, para transformar esse potencial em protagonismo, é necessário superar desafios como segurança jurídica, licenciamento ambiental ágil, mão de obra qualificada e inovação.
“O Brasil já produz lítio, tem projetos de terras raras e uma base geológica privilegiada. O que falta é acelerar investimentos, inovação e agregação de valor”, afirma Guedes. Ela estima que, se os projetos em desenvolvimento forem aprovados, a produção brasileira pode saltar de menos de 1 mil toneladas para 38 mil toneladas, alcançando quase 10% da oferta global.
O papel da regulação
Para atrair investimentos, é crucial um arcabouço jurídico sólido e previsível. Projetos em tramitação no Congresso buscam criar um ambiente regulatório estável, com incentivos como depreciação acelerada e zonas especiais. “Não adianta avançar em apenas um aspecto e negligenciar os demais. O investidor precisa de segurança jurídica, licenciamento ágil e estímulos fiscais”, explica Guedes.
Atualmente, o tempo médio entre a descoberta de uma reserva e a entrada em produção é de 17 anos. A especialista defende que o Estado deve atuar como regulador, não como empresário, criando condições para que o setor privado invista e gere benefícios para a sociedade.
Oportunidades e diferenciais do Brasil
O Brasil se destaca por sua neutralidade diplomática, fazendo negócios com China, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio. Além disso, a abundância de água e energia com preços competitivos permite uma produção com menor pegada de carbono. “Nenhum monopólio é bom. A China controla mais de 90% do processamento global de terras raras. O Brasil pode ser um parceiro estratégico para diversificar a oferta”, ressalta Guedes.
Benefícios para comunidades locais
A exploração de terras raras pode trazer desenvolvimento para as regiões produtoras, desde que haja regulação adequada. Royalties e participações especiais, semelhantes aos do petróleo, podem ser revertidos em educação, saúde e fortalecimento do serviço geológico. “O Estado deve garantir que parte da receita seja investida em pesquisa e desenvolvimento direcionados às cadeias produtivas”, defende a consultora.
Ela alerta para a “maldição dos recursos naturais”: é preciso planejar o futuro pós-mineração, com fontes de renda alternativas. As novas mineradoras já adotam práticas mais limpas, como reúso de água, monitoramento constante e uso de mão de obra local, ajudando a construir uma mineração diferente da que gerou tragédias no passado.
Sustentabilidade e inovação
As demandas por rastreabilidade, descarbonização e governança estão transformando o setor. “Voluntariamente, nenhuma empresa quer gastar mais. Por isso, o papel dos governos é essencial para criar selos e exigências mínimas”, afirma Guedes. Tecnologias como inteligência artificial, satélites e drones já são usadas para melhorar a exploração e o monitoramento.
“O brasileiro é muito criativo. Precisamos transformar essa criatividade em inovação intencional, incentivando ecossistemas de inovação que desenvolvam técnicas mais rápidas, limpas e eficientes”, conclui a especialista.
O tema será debatido no Energy Summit, evento que ocorre entre 23 e 25 de junho no Rio de Janeiro, com mais de 12 mil participantes, 3,3 mil empresas e 300 palestrantes, em parceria com o Estadão.



