Fox fatura milhões com recordes de audiência na Copa e compra Roku por US$ 22 bi
Fox fatura milhões com recordes de audiência na Copa

Na primeira semana da Copa do Mundo, os 12 primeiros jogos exibidos na FOX, FS1 e Tubi (streaming com anúncios da Fox Corporation) atingiram média de 6,7 milhões de telespectadores, 152% acima da média da fase de grupos do torneio em 2022. A goleada da Seleção dos Estados Unidos em seu debute bateu 18 milhões de espectadores em média, tornando-se a transmissão em língua inglesa mais assistida da história do torneio no país.

Recordes de audiência impulsionam receita publicitária

O empate entre Brasil e Marrocos superou 10 milhões de espectadores, consolidando-se como o jogo de uma seleção estrangeira mais visto nos EUA. A abertura entre México e África do Sul registrou 6,3 milhões, a estreia mais assistida do torneio. Os recordes turbinam a máquina publicitária da Fox durante o Mundial.

Segundo compradores de mídia ouvidos pelo Sportico, um comercial de 30 segundos durante os intervalos de hidratação rende, em média, US$ 275 mil na Fox, com espaços na transmissão do jogo EUA-Paraguai chegando a US$ 850 mil cada. A estimativa é de que a Fox esteja faturando cerca de US$ 2,5 milhões adicionais em receita publicitária por partida que não envolve a seleção americana, enquanto os três jogos da fase de grupos dos EUA devem gerar US$ 23 milhões extras apenas nesses intervalos obrigatórios.

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Fox adquire Roku por US$ 22 bilhões

Em meio às marcas históricas, a Fox anunciou a aquisição da Roku por US$ 22 bilhões. Nas palavras de Alexander Sherman, da CNBC Sports, o movimento transforma a Fox de uma empresa majoritariamente centrada em notícias e esportes em uma das maiores agregadoras de serviços de streaming para TVs conectadas do mundo. A Roku representou 44% de todas as horas de streaming em dispositivos de TV conectada nos EUA no quarto trimestre de 2025. No país, 40% das novas TVs vendidas rodam com o Roku OS. Globalmente, mais de 100 milhões de lares utilizam algum produto da empresa.

Esse tipo de monetização em escala ajuda a entender por que o ativo mais relevante da Fox já não está apenas no conteúdo, mas na camada que controla sua distribuição e capacidade de gerar publicidade. Como destacou o analista Ian Whittaker, a Fox está buscando alavancar sua posição sobre a rede de distribuição.

Esporte como infraestrutura crítica de tecnologia publicitária

Segundo James Mortimer, quando a mídia é analisada pelas lentes de um mecanismo de publicidade no nível da Meta, o valor dos esportes muda fundamentalmente. Na era da assinatura pura, plataformas de streaming tratavam direitos esportivos como um custo de aquisição de assinantes (CAC). Na transição para o AVOD (vídeo sob demanda com publicidade), essa lógica se reorganiza: os direitos esportivos saem da condição de simples custo de marketing e passam a operar como “infraestrutura crítica de tecnologia publicitária”.

Os novos dados de receita publicitária global da Madison & Wall indicam que a receita global com publicidade deve aumentar 8,3% em 2026, atingindo US$ 1,42 trilhão. Em 2030, o mercado global pode chegar a US$ 1,72 trilhão, com CAGR de 5,6%. O crescimento de 2026 é puxado por eventos esportivos cíclicos, incluindo a Copa do Mundo.

Da fragmentação do streaming à reinvenção da distribuição

Em 2019, a Fox vendeu a maior parte de seus ativos de entretenimento para a Disney por US$ 71 bilhões. Sete anos depois, a indústria se reorganizou. Disney, Warner e Paramount passaram a competir por assinantes em um modelo pressionado por custos e margens. Já a Fox manteve o foco em esporte ao vivo. Desde a transação com a Disney, a Fox aumentou seu EBITDA ajustado para um recorde de US$ 3,62 bilhões e gerou mais de US$ 2 bilhões em fluxo de caixa livre anual.

A cautela da família Murdoch foi lembrada por Whittaker para destacar que os controladores da Fox sempre tiveram uma visão de longo prazo. Hoje, a nova aposta de Lachlan Murdoch é uma demonstração de que o futuro da mídia exige controle sobre toda a cadeia: conteúdo (Fox Sports e Fox News), distribuição em streaming suportado por anúncios (Tubi) e infraestrutura de acesso (Roku).

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O controle como vantagem competitiva

Mortimer descreve esse movimento como o início de um novo modus operandi, em que ligas esportivas passam a exigir participação acionária, compartilhamento de receita publicitária e acesso a dados em troca de direitos de transmissão. “Elas não aceitarão mais apenas cheques com valores fixos; vão exigir participação no sistema de publicidade”, argumenta.

Nesse cenário, gigantes da tecnologia (Apple, Amazon, Google) e players tradicionais sobreviventes (como a própria Fox) disputam um “jogo de soma zero pela supremacia da atenção” no qual o esporte segue sendo o único ativo com audiência simultânea em escala global. Como resume o analista, as ligas detêm um capital único “não replicável, apenas adquirido”.

Essa dinâmica deflagra uma vulnerabilidade de empresas que detêm apenas direitos de transmissão e vivem sob risco constante de desintermediação por quem controla o dispositivo onde o conteúdo é consumido. No limite, Mortimer é certeiro ao inverter uma narrativa dominante do Vale do Silício: “o controle de acesso, na verdade, sempre foi o modelo de negócio.”