Nos últimos três anos, a Ford contratou cerca de 350 engenheiros de nível sênior nos Estados Unidos, muitos deles ex-funcionários da empresa. Todos vão trabalhar no treinamento de sistemas de inteligência artificial, após a montadora concluir que a tecnologia não estava atingindo o mesmo nível de qualidade da produção humana.
Montadora admite precipitação ao adotar IA em larga escala
Em teleconferência realizada no dia 24 de julho, o vice-presidente de engenharia de hardware para veículos da Ford, Charles Poon, admitiu que a empresa se precipitou ao adotar a IA em larga escala em suas linhas de produção. “Nos anos anteriores, não demos tanta atenção quanto deveríamos à experiência dos nossos engenheiros mais qualificados, que estiveram conosco ao longo de muitos ciclos de desenvolvimento de produtos”, afirmou Poon. “Por engano, achamos que bastaria introduzir inteligência artificial e alimentá-la com os requisitos de projeto que já tínhamos para obter um produto de alta qualidade”, concluiu o executivo.
A responsabilidade dos engenheiros veteranos será treinar sistemas de automação e inteligência artificial, além de orientar engenheiros mais jovens. Com a experiência desses profissionais, a montadora pretende aprimorar o controle de qualidade, aumentando a produtividade e reduzindo os custos de produção.
Problemas de qualidade impulsionam mudança de estratégia
Os problemas de qualidade ajudam a explicar essa mudança de estratégia. A Ford não teve muito o que comemorar nos últimos anos quando o assunto é a qualidade final de seus carros. Em meados de 2024, a empresa gastava cerca de US$ 4,8 bilhões por ano com garantias. Já em julho do ano passado, a montadora atingiu a marca de 90 recalls no período de um ano, um recorde na indústria automotiva norte-americana.
Paralelamente, a empresa investiu fortemente em tecnologias de IA nos últimos anos. Em outubro, Kumar Galhotra, diretor de operações da Ford, confirmou a instalação de 900 câmeras equipadas com inteligência artificial nas fábricas para identificar problemas de qualidade e reduzir interrupções no fornecimento. Mas, sem o treinamento adequado, a tecnologia se mostrou ineficiente.
Melhora nos indicadores de qualidade
Com as contratações dos últimos anos, a Ford começa a dar sinais de melhora na qualidade de seus produtos. A empresa foi a montadora mais bem colocada no J.D. Power Initial Quality Study, estudo norte-americano que mede a qualidade de um veículo durante os três primeiros meses de uso. Na edição deste ano, a Ford ficou em terceiro lugar, atrás apenas de Porsche e Genesis, duas fabricantes de luxo. Entre os veículos da marca, a picape F-150, a linha Super Duty e o Mustang lideraram suas respectivas categorias.
No ano passado, o mesmo estudo da J.D. Power apontava a Ford como a décima colocada entre as fabricantes de alto volume, com qualidade abaixo da média do setor.
Resultados financeiros e perspectivas
A Ford superou as previsões do mercado no 3T25, com lucro líquido de US$ 2,4 bilhões e receita de US$ 50,5 bilhões. Os bons resultados deixam a empresa otimista, mas ainda há prejuízos acumulados. Para 2026, a Ford espera gastar US$ 1 bilhão com garantias e materiais.
O mesmo diretor de operações que anunciou a instalação das câmeras com IA agora elogia os engenheiros veteranos pela melhora na qualidade dos produtos da montadora. Segundo Kumar Galhotra, eles “buscam pontos de falha antes mesmo que uma peça chegue à linha de produção”. Para ele, a tendência é que os recalls comecem a diminuir em breve, embora ainda não seja possível estabelecer um prazo.
Já o CEO Jim Farley afirma que a Ford já começa a recuperar parte das perdas acumuladas nos últimos anos. “Estamos vendo os custos com garantias diminuírem. Estamos vendo os custos com recalls caírem”, disse Farley. “Tudo isso está gerando uma economia de literalmente centenas de milhões de dólares, funcionando como um vento a favor para a Ford em termos de custos.”



